quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Brincando na Bola de Barro




Turbilhão sona
sem trono ou pressa
rasga a ventana
luz liquida 
que decai a tarde
Montanha
rocha dura é tragada
a metrópole invade
teu corpo dilacerado
devora o ventre verde
e o vento forte
cobra do homem
a proteção

Onde está Camelot
que abrigou Arthur e seus pares?
O palácio de Menphis
onde reinava Akhenaton
virou areia seu sonho
Até Atlântida das altas muralhas
o oceano tragou
nem um sinal restou
Quanto ainda vão perdurar
as novas torres da vaidade
dos homens 




sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Mandela






Manda, manda, Mandela,
Mandiba de tanta paz
Quebrou a lança o velho guerreiro
virou estadista de homens
sem raça, côr ou conceito
que pudesse lhe governar
Ele foi um desses poucos
que de Aruanda se trás
que em vez do machado de guerra
trouxe a união ao seu povo
e entendimento
que a vingança assassina
compaixão contra o algoz
sabedoria que ilumina
e ao herói eterniza
Salve Mandela, Mandiba
Hoje Aruanda em festa
recebe tua alma vivaz


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Mundo e o Mago







Secundado no cortejo pelo Imperador 

Foi decretado como certo meu enforcamento 

Balançando no ramo torto do carvalho

Perdido como louco pelo Caminho

Como todo viajante sigo sózinho

Em direção ao abismo que se avizinha 

Enganando o Triunfo dessa verdade

Heremita da vida sigo sózinho 

A verdade nua que me rejeita 

Como primata solto sem o seu bando 

Sigo sózinho pelo Caminho

Meu ronco eu grito no desengano




segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Fera Encurralada





Sem  inspiração 
o vácuo e a forma
preenche o grande oco
estival caverna, 
ruína de priscas eras
esconde nas suas profundezas
os mágicos desenhos dos Antigos

Iniciados descem por cordas
ao sepulcro da rocha
e registram com tição e cal
o passado de glória 
caçada eterna 
da tribo humana

O cheiro da pele recém curtida
cobre meu dorso
presa raivosa se camufla
nas sombras do labirinto
Ouço num crescendo
o som do ronco da fera
escondida
Sua indistinta forma 
ameaçadora
preenche a cave sinistra
com vela de sebo
minha tênue luz ilumina
a estreita passagem
borduna em riste
aguardo o iminente ataque
com certo enfado
sem medo
pensei ter prendido a fera
no meus mágicos riscos
ouço seus gritos e gemidos
aguardo o mortal combate
que me espera
em busca de rápido alivio
pensamento atroz ao fim
do túnel que me espreita:
Serei eu ou serei fera ?


   

Salvem as Baleias !








Servo cativo feito máquina

quando percebe sonhos

sente pânico 

vertigem indigente decomposta 

cresce o cerebelo 

em direção ao hipotálamo 

na minúscula entranha 

células ditadoras 

exigem sacrifícios de sangue 

tenso híbrido 

na linha de montagem 

partículas de DNA 

pequenos arcabouços 

se desfazem 

ligações quimicas 

neurais 

filas de elétrons 

sequencia lógica 

marcham em quântica 

ordem unida 

declamam os sábios: 

"É a tendencia da matéria bruta criar a vida" 




Centimetros cúbicos em bilhões de eras

do profundo espaço

planetóides em imenso impacto

trouxeram a massa líquida da vida

para a dura superfície da Terra



Somos portanto água revolta

caldo turvo

de poeira de estrelas

vida perene

viajante

que permeia a eternidade




segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O Anjo da Morte



Estranha Valquíria traveste-se em miríades de formas
ao rolar das eras, calendas rubras
Serva dos dias derradeiros 
longas asas resolutas voejam sobre a Terra
discórdia 
Ares lavra os campos da morte
Segue seu voo o tenebroso cortejo
dos carros de guerra 
das hordas montadas vindas do Leste
dos conquistadores de gentes
dos cobiçosos de ouro
que cruzaram oceanos e continentes
o aço duro, a pólvora e a peste
carregavam nas naves o seu bojo
Encontrei certa feita tua forma terrena
ao descer dos vagões da morte
Impávida figura, farda negra impoluta
botas longas lustrosas sem mácula
acariciava chorosa e tremula criança
enquanto perscrutava a multidão indefesa
que seguia tangida para os banhos
exalava o acre odor das fábricas da morte
negras nuvens vomitavam as chaminés
 saciados corvos esvoaçavam na suja neve 



quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Vitor Jara





Prantea baixo o choro
dos pueblos da calle ancha
nos dormitórios obreiros de Santiago
nas minas e fábricas 
nos bares pobres da estiva
no cais de Valparaíso
segue fúnebre cortejo do medo
tua voz calada a força
tuas mãos rotas 
a golpe de armas
via escura e tortuosa
estranha sina
cumpre o plano divino
livre pelo tormento teu espírito
do inferno terrenal
torna eterno teu canto
que aos mais fracos afaga e acalenta
persistente nota
preenche a escura noite:
- Te recuerdo Amanda 
 la Calle mojada... 



quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Ação de Despejo





Despejo
Velocidade alucinante
Velocípede corre célere pela sala
que parece um mundo
trânsito intenso
Não sei quando chegaste velhice 
amargurada e sem rosto
no reflexo do espelho olha-me
um velho atônito, desdentado, 
que não reconheço
e ele me acena 
Corre veloz a cena
Meninice peralta subida em goiabeira
do quintal da vó
Alma infantil, memória-sentimento
e nostalgia
A rua tola lembra dias sem compromisso
estranha preocupação de criança
de um dia acabar morando lá fora
do bater na porta o homem malvado
para confiscar a televisão por contas não pagas
Como ficar sem Flash Gordon, Buck Rogers,
Rin Tin Tin e Durango Kid ?
Ação de Despejo
Subir com os pés nus nos marcos das portas
Passar o tempo com brinquedos quebrados
fingindo que são outras coisas de brincar
Plantar cambalhota e brincar de teatro com a prima
Teatro de sombras com as mãos à luz de velas
Olhar a janela em dia de chuva febril
Como se fosse ontem
O médico chega com sua maleta preta e ausculta 
com o estetoscópio o pequeno pulmão doente
Nervosos os adultos fumam preocupados na sala
Comprar cigarro na venda da esquina
Vergonha de comprar fiado
Zacarias, o padre agiota bate a porta
Tensão no ar
Todos fazem de conta que são feios
A vida está pela hora da morte, dizem
Salvando o dia a máquina de costura não pára
Ao lado, no hospício
os loucos cantam e dançam uma música sincopada 
sem ritmo
coloco a escada e temeroso olho por cima do muro
e vejo meu filho com olhar distante
cresci de repente
agora são minhas as dívidas (e as dúvidas)
pequenos rebentos crescem céleres
rota de colisão, trânsito intenso
agora sem velocípedes... 



segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Calle



Calada a prosa
Sem tanto tempo
segue imperturbável seu canto
Calle ancha
passeio bruto, sem rumo
Toca Atualpa Yupanqui
guitarra rouca, elétrica
voz sumida da América
tinge de sangue as mãos do menestrel
poucas moedas caem em seu pano

Calada a prosa
passa imperturbável o tempo
entre pedras e portas 
de artificio pleno
entre multidões perseguidas
soam acordes
cordas nuas dedilhadas com esmero
notas rubras são atiradas ao céu
ou nem tanto
são poucos os ouvidos prontos/
atentos
como aviso e chama
incendeia o corpo
da nave infecunda
segue a tarde sem rumo 
a verdade agora já não transluz









quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Desapego (Sísifo)





Imensa rocha 
empurra o servo do purgatório
aclive acima
Quando no seu ápice 
cumpre a pena de tão íngreme subida
retorna o petardo
morro abaixo

Tenta novamente o escravo do destino
retomar com a carga
o caminho da subida
empurrando o fardo de pedra

Libera seu peso ! Libera !
limpa a tez úmida 
e olha para trás o cruel abismo
onde mais cedo ou mais tarde 
toda a soberba se encontra
de onde as vozes das almas ecoam
clamam o socorro
ao perceber que nada perceberam
enquanto viviam suas vidas impolutas...

terça-feira, 25 de junho de 2013

Sujos Degredados




Desterrado marujo
mira a linha do horizonte
deplorando a própria sorte
de criminoso naufrago
abandonado pela Nau Capitania

Recorda com triste nostalgia
as cidadelas infectas,
sarjetas à céu aberto,
a peste negra
e as tabernas sujas
onde indolente o rum sorvia

Olha com desprezo de Gargantua
os nus selvagens da terra ao seu redor
onde prisioneiro habita
Bestas indecentes 
que adoram banhar-se em águas puras
Não percebem que enfraquecem
no corpo os humores da vida?

Não é por nada que desde sua vinda
morre um todo o dia.

Saudade que não passa
doença que se arrasta
e contamina futuras gerações
que permanecem na praia
como marujo condenado
olhando o horizonte
a espera da nau que nunca regressa...

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Abatis Fortunattis






Para cada árvore existe uma ninfa protetora
Dizem os alfarrábios da magia
Na essencia da seiva que flui
brota mágica energia 
O deslumbre da aurora
todo o dia tinha da minha janela 
 frondosa companheira
onde lindos pássaros habitavam
e alegravam com seus cantos as redondezas
Insensível humano certa feita 
por estranha estética e idiotia
resolveu abater o pobre ser 
que de sua sombra a vida abrigava
e a ninfa chorosa viu cair
suas ramas em triste madrugada
A obra de doentia  estética 
revestia de cimento a calçada
Da janela olhei para o mal feito
e clamei da ninfa a certa vingança 
e o chão abriu-se aos poucos todos os dias
formando imensa vossoroca
Imaginem o que espera o sujo porco
que destruiu centenas de árvores em um só dia
burgomestre de malfadada cena
Terá terrível morte em agonia
Assim comanda o dito sortilégio
conjurada praga
das ninfas que do luto de seu pranto
passada a tristeza vem a ira 
abrirão as entranhas do mal feitor
com machadas
de onde jorrará sua humana seiva
em dantesca tortura
assim foi dito pela fada

sábado, 13 de abril de 2013

Amor em tempos de Fúria








Meninos mascarados 
lembram aos adultos domesticados
que ainda existe vida nessa terra
Lutando por direitos inalienáveis
farrapos, balaiada, sabinada e cabanagem
Quem não tiver pecados 
que não atire pedras
e vá descansar no regaço
da sua própria indolência.
A manada pasta em seu cercado
e aguarda silenciosa na fila do matadouro
e acha ruim quando um touro jovem
rompe impetuoso a cerca.


quinta-feira, 28 de março de 2013

Os Vendilhões do Templo de Salomão



Cretinização,
idolatria de ventre nu
levando de barriga
tela colorida de plasma
alta definição que escorre 
defeca sobre a mesa do jantar
produtos GMO
Cair no lugar comum
é tombo sem volta
marca registrada 
trade mark made in USA
Idiotia
fé cega, faca amolada
na garganta do Cristo
sangra a lamina do pastor meliante
e Jesus oferece a outra face
uma face desconhecida
pobre, carente, indefesa
de menina adolescente
e rapaz sem escola
coisa fechada, sem gosto
batendo no peito
mea culpa, mea maxima culpa



terça-feira, 5 de março de 2013

Paulo Leminsky





Alguns anos atrás
Conheci Paulo Leminsky 
como nome de praça em Curitiba
Já tinha o poeta nessa época partido para o Céu da poesia
Li sua sucinta tradução de Hai Cais
Algumas resenhas perdidas
Até cair na minha mão toda a sua poesia
Então estupefato e maravilhado
percebi como seus lindos versos
que  antes nunca tinha lido 
tinham influenciado até então 
minha pobre escrita

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

PADMA



Já teci mil palavras sobre o Padma Sagrado
Mistério que desabrocha da água inculta/poluída
Dizem os sábios mestres 
que nem todos crescem tão longe da luz
outros mal rompem o limite da linha d'agua
outros ainda mais se aproximam da morada do sol.

Gautama, o Tataghata
em sua célebre palestra sob a frondosa árvore
sem palavra alguma
exibiu simples flor para os discípulos
e naquele momento imediatamente
muitos alcançaram o samadhi
inclusive um pobre pastor 
que de longe avistava o Iluminado



Na superfície desse lago congelado segue o mestre 
mal tocando a fina camada de água pura
em cada leve pisada
evita romper o gelo novo da última geada 
do inverno que finda.

Nova primavera
Cada novo brôto verde de vida
é sorvido pelos viajantes
Sofrega vida que brilha e grita
na terra viva

Onde se esconde o Lótus Sagrado ?

Na trilha sinuosa observo ao longe
as costas do mestre que se distancia
Com seu cajado, passos trôpegos

Abro a porta da mente e retorno à rua
cheia dos gases de veículos apressados
insuspeitas cobaias da cidadela labirinto 
caminhos que não chegam a lugar algum 



domingo, 17 de fevereiro de 2013

SAMSARA





I

Arjuna e Krishna observam do alto da colina
Do carro de guerra o rei Pandava inquieto
avista a terrível cena que abaixo descortina
No amplo vale os dois exércitos se enfrentam
Dois blocos de nobres infantes manobram
elefantes de guerra, carros e cavalaria ligeira
cintilam as couraças dos guerreiros na aurora, 
ouvem-se os gritos de ordens da batalha 
Boca seca, mãos tremulas, frouxas pernas
o soberano guerreiro já pensa desistir e vacila 
antevendo o nefasto fim, a final carnificina
Nas falanges opostas habita sangue da mesma cepa
muitas viúvas prantearão a morte de tantos heróis
recolherão seus familiares corpos nos campos sem vida
resultado horrendo e certo da batalha fratricida.
Nota o  deus auriga a hesitação do chefe das hostes luminosas
sentimento que põe a perder  a guerra
o fim da vitória dos justos sobre os poderosos
mudar para sempre a face do destino dos futuros faustos dias
quando os deuses já não estiverem mais entre os homens
e a vida do planeta por um fio exista.
Sua verdadeira imago o pastor dos deuses por fim revela:
- Percebe Arjuna como tudo é ilusório !
Das hostes a finitude prospera e já faz sua amarga colheita 
Olha para mim soberano dos Pandavas
Eu sou Kala a morte que tudo transforma
Sou eu que levo as almas como seiva bruta
para as fornalhas dos infernos, eterna forja
Sou eu que transmigro as almas no seu Karma eterno
ao Destino somente subalterno  
que cinge o sinal  na fronte do destemido guerreiro  
e determina se sobrevirá ao valente ou não um novo dia 
ou será aniquilado nessa terra, para viver em outra futura harmonia
Hare Samsara que do Universo tudo condena
e até Vishnu comanda
Lei eterna do dia de Brahman
Sou foice sagrada que sega a colheita.



II

Grandiosa imagem de Vishnu se expande
tridente, báculo e coroa iridescente
mostra sua verdadeira aparência Krishna
para o pobre soberano temeroso e vacilante 
o pastor da cor do céu de sua boca exala 
os astros luminosos da infinita Criação
o Espaço sem fim que incha suas formas 
De sua voz que trona como magnifico trovão
Nesse redemoinho formidável espectros são sorvidos 
exércitos dos homens são destruídos
como formigas são esmagadas em um formigueiro
Hoje, agora e para todo o sempre 
numa interminável curva de sangue e morte
que se escoa eternamente pelo fulcro interminável 
da Roda Chamejante do Destino
Ilumina então o semblante do rei guerreiro
da aparição tenebrosa que testemunha
a compreensão vem como uma centelha
o esclarecimento como chave eterna
abre a porta do shatria soberano



III

Cada um cumpre seu papel nessa vida
Jogo de dados que só Brahman conhece as regras
eterna luta que do espaço avista
do coração o homem deve ser escravo 
da mente a ilusão de maya esconde
uma falsa eternidade ao homem
que pretende o corpo proteger 
e torna a existência como verme que se enrosca
em galho de velha árvore apodrecida 
derrubada em tênue ventania
ou levado por correnteza sobre fina folha
que se afoga logo ao fim da vida
Assim na Terra tudo nada muda 
e fenece o que mais importa
a eterna alma, falso Karma 
minúsculo fogo que se extingue
na imensa forja de Brahman.


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Sol do Sahel





O que esconde o sol do Sahel ?
Esconde tua beleza o véu 
na trilha ondulada 
onde descansam as cabras
jorra a água, líquido sagrado do oásis
tamareiras fecundas são tocadas pela brisa
o som dos sinos avisa 
lembra a hora tardia para a prece 
no fim da tarde preguiçosa 
nenhuma suspeita 
que a paz deva ser quebrada
naquela parte do mundo
onde só os fortes sobrevivem
Homens consertam os caminhões
verificam armas e munições 
rezam as ultimas orações 
e partem...

Confrangido coração da amada

criança em choro convulsivo
Não entende essa guerra dos homens
que permeia sua sagrada morada
Olha a noite que se avizinha 
Observa os pássaros de fogo
que diariamente cruzam esses caminhos 
em suas estranhas derrotas 
E faz uma prece singela para os santos
para que vivo o amado retorne.
Ao fim da tarde reúne na tenda
as mulheres e crianças do clã
os velhos patriarcas que jogam gamão
tomam o chá e contam estórias
sobre antigos combates e valentes guerreiros
para deleite dos pequenos sonhadores

Nessa noite o pássaro de fogo muda a trajetória

homens pilotam suas naves tecnológicas
conversam trivialidades 
enquanto observam iluminados écrans
são pontos que se movimentam
brilham quilômetros à distancia
Basta o apertar dos botões
E o mundo na tela se expande a volta
em uma magnifica explosão
Do acampamento nada resta 
Só o choro convulsivo do guerreiro 
que retorna...

O que esconde o véu ?

O que esconde o sol do Sahel ?