quarta-feira, 11 de abril de 2018

Katana




Cortar o Tempo
feito faca / katana
espada curta
movimento rápido
que sangra
o corte
angular
da alma
cruzar
a rua
feito robot
míssil teleguiado
em busca
do alvo
ronin sem dono
nem causa

Quando vc.
me deixou
no desiludir
da vida
percebi
afinal
que nada restara
entre nós
ou foi o contrário?
pois nada termina
na véspera
de acontecer

terça-feira, 10 de abril de 2018

Os Nazistas Doutores - Assassinos da SS com doutorado

Assassinos da SS com doutorado


Em estudo monumental, historiador francês Christian Ingrao ressalta o papel decisivo dos intelectuais na elite da Ordem Negra de Himmler

A imagem que se tem popularmente de um oficial da SS é a de um indivíduo cruel, chegando ao sadismo, corrupto, cínico, arrogante, oportunista e não muito culto. Alguém que inspira (além de medo) uma repugnância instantânea e uma tranquilizadora sensação de que é uma criatura muito diferente, um verdadeiro monstro. O historiador francês especializado em nazismo Christian Ingrao(Clermont-Ferrand, 1970) oferece-nos um perfil muito diverso, e inquietante. A ponto de identificar uma alta porcentagem dos comandantes da SS e de seu serviço de segurança, o temido SD, como verdadeiros “intelectuais comprometidos”.

O termo, que escandalizou o mundo intelectual francês, é arrepiante quando se pensa que esses eram os homens que lideravam as unidades de extermínio. Em seu livro Crer e Destruir: Os intelectuais na máquina de guerra da SS nazista, Ingrao analisa minuciosamente a trajetória e as experiências de oitenta desses indivíduos que eram acadêmicos – juristas, economistas, filólogos, filósofos e historiadores – e ao mesmo tempo criminosos –, derrubando o senso comum de que quanto maior o grau de instrução mais uma pessoa estará imune a ideologiasextremistas.

Há um forte contraste entre esses personagens e o clichê do oficial da SS: assassinos em massa fardados e com um doutorado no bolso, como descreve o próprio autor. O que fizeram os “intelectuais comprometidos”, teóricos e homens de ação, da SS foi terrível. Ingrao cita o caso do jurista e oficial do SD Bruno Müller, à frente de uma das seções do Einsatzgruppe D, uma das unidades móveis de assassinato no Leste, que na noite de 6 de agosto de 1941 ao transmitir a seus homens a nova ordem de exterminar todos os judeus da cidade de Tighina, na Ucrânia, mandou trazer uma mulher e seu bebê e os matou ele mesmo com sua arma para dar o exemplo de qual seria a tarefa.

É curioso que Müller e outros como ele, com alto grau de instrução, pudessem se envolver assim na prática genocida”, diz Ingrao. “Mas o nazismo é um sistema de crenças que gera muito fervor, que cristaliza esperanças e que funciona como uma droga cultural na psique dos intelectuais.”

O historiador ressalta que o fato é menos excepcional do que parece. “Na verdade, se examinarmos os massacres da história recente, veremos que há intelectuais envolvidos. Em Ruanda, por exemplo, os teóricos da supremacia hutu, os ideólogos do Hutu Power, eram dez geógrafos da Universidade de Louvain (Bélgica). Quase sempre há intelectuais por trás dos assassinatos em massa”. Mas, não se espera isso dos intelectuais alemães. Ingrao ri amargamente. “De fato eram os grandes representantes da intelectualidade europeia, mas a geração de intelectuais de que tratamos experimentou em sua juventude a radicalização política para a extrema direita com forte ênfase no imaginário biológico e racial que se produziu maciçamente nas universidades alemãs depois da Primeira Guerra Mundial. E aderiram de maneira generalizada ao nazismo a partir de 1925”. A SS, explica, diferentemente das ruidosas SA, oferecia aos intelectuais um destino muito mais elitista.

Mas o nazismo não lhes inspirava repugnância moral? “Infelizmente, a moral é uma construção social e política para esses intelectuais. Já haviam sido marcados pela Primeira Guerra Mundial: embora a maioria fosse muito jovem para o front, o luto pela morte generalizada de familiares e a sensação de que se travava um combate defensivo pela sobrevivência da Alemanha, da civilização contra a barbárie, arraigaram-se neles. A invasão da União Soviética em 1941 significou o retorno a uma guerra total ainda mais radicalizada pelo determinismo racial. O que até então havia sido uma guerra de vingança a partir de 1941 se transformou em uma grande guerra racial, e uma cruzada. Era o embate decisivo contra um inimigo eterno que tinha duas faces: a do judeu bolchevique e a do judeu plutocrata da Bolsa de Londres e Wall Street. Para os intelectuais da SS, não havia diferença entre a população civil judia que exterminavam à frente dos Einsatzgruppen e os tripulantes dos bombardeiros que lançavam suas bombas sobre a Alemanha. Em sua lógica, parar os bombardeiros implicava em matar os judeus da Ucrânia. Se não o fizessem, seria o fim da Alemanha. Esse imperativo construiu a legitimidade do genocídio. Era ou eles ou nós”

Assim se explicam casos como o de Müller. “Antes de matar a mulher e a criança falou a seus homens do perigo mortal que a Alemanha enfrentava. Era um teórico da germanização que trabalhava para criar uma nova sociedade, o assassinato era uma de suas responsabilidades para criar a utopia. Curiosamente era preciso matar os judeus para realizar os sonhos nazistas”.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Negra Marielle




Era negra sua sina
de pessoa 
que nasceu
num país de mestiços
degredados
Era negra sua tez
de beleza infinda
sorriso franco
que tudo alumia
Coragem de mulher
que conhece sua sina
jogo de cartas marcadas
pelo demonio
pastor de igreja
polícia
milícia
soldado
patrão
mestiço 
quase branco
A morte lhe chegou 
sorrindo
Tocaia bruta
à bala
Melhor morrer
que viver nas mãos
dos carrascos 
à espera da justiça
que nunca chega
Melhor morrer...


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Tempo, tempo, tempo, tempo...

Cronos tece o fio das calendas
rubras sendas
celebra a luta dos homens
sobre a Terra
como átimo suspiro
dos deuses
fogo que se acende
na fuga chama
do fósforo que se apaga
assim que finda
luz que descaminha
cinza fria
matéria escura
que permeia o Todo
que não vemos quando olhamos
sua fronte
que não escutamos quando
sopra a corrente
de cada minuto insolente
que escapa
vida tortuosa
aventura cotidiana
devora a carne
dos filhos
em sua labuta
silenciosa
rio caudaloso
abismo
sem volta
oração de regresso
da alma

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Buraco Negro




Tenho uma tristeza profunda
Ferida aberta
No fundo do meu coração
Que revoluteia
Como ralo de pia
Sugando tudo de bom
Que num dia restou
De olhares
Sorrisos e carinhos
Passeios de mãos dadas
Na beira da praia
Dos lençóis perdidos
Das risadas
De tudo que resta
Sorve e some...


terça-feira, 4 de julho de 2017

Bala Perdida




Sou a bala perdida
no corpo da criança
que ainda está para nascer
Sou a Mãe África
que estende sua colcha
ao longo do passeio
cheia de produtos
Made in China
Habito corações/continentes
hemisférios e orientes
expulso meus filhos
em profusão
das minhas 
grávidas entranhas 
fossas abissais 
em direção ao centro
do vórtice luminoso
turbilhão flutuante
dos mares ignotos
em busca da riqueza
dos sonhos infecundos
e da paz dos afogados
sem nome
Sou daqueles jovens negros
ou quase pretos
corpos insepultos
que habitam todas as periferias
Sou aquela que prantea
o menino sem rosto 
jogado no asfalto
servido ao holocausto
das feras fardadas
Sou quem resiste
como pode
todo o dia
aos grilhões
de mãos vazias
cometendo o maior
de todos os crimes
contra a humanidade
dos tiranos sem mácula
que é sobreviver


quinta-feira, 8 de junho de 2017

O Vazio das Palavras




O vazio de palavras
não ditas
que pretendem aflorar
sem culpa
Terrível página que
se esconde
e perturba
Sombrio caminho
de reflexão
numa noite
tempestuosa
Desce a correnteza
pela calçada nua
Dorme o sujo
andrajo
na soleira da porta
Esconde a mente
a tortura
de palavras não ditas
num pensamento
sem volta...