quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Cizânia




Foto: Orlando de Azevedo


Nada sobrou, nem ninguém
o último confronto
foi entre dois deles apenas
ambos sobreviventes únicos
da última hecatombe
fruto decadente
de torpes ideologias
e falsas religiões
as multidões trucidaram-se
a míngua
Destruíram cada santuário
mataram todas as crianças
Os mais sensíveis suicidaram-se
em suas alcovas
Outro lutaram nas ruas
e quando faltaram as armas e munições
mataram-se a mordidas, com paus e pedras
e devoraram os mortos
pois comida outra já não havia
Usaram todos os seus artefatos de morte
que eram muitos
até o fim de cada nação da Terra
de cada tribo
de cada família
A última luta foi entre dois apenas
entre pedras devolutas calcinadas
que sobraram das muitas batalhas
e assim foi deles o fim
dois iguais espécimens
de estranha biologia  
silêncio afinal! 


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Ouro Preto




Decanta a Flor do meu espírito
em aromas cálidos noturnos
O lugar comum de liquidos rubros
tecendo ébria maresia
nas velhas casas assobradadas 
o sobe desce ladeira contínuo
das pedras curvas desgastadas
no torvelinho da noite que me cerca
sorvem seus velhos fantasmas
no sumidouro das almas
instante abissal das trevas
quando cavalgam fidalgos 
com seus atavios e alfaias douradas
e a escravaria geme 
subindo a colina 
mourejando nos ombros 
os sonhos dos espectros sombrios 
que permanecem no limbo dos casarios 
fincados naqueles alicerces de sangue
no porão das senzalas grito rouco ainda vibra 
lavra de ouro esgota a seiva
encharca o dorso nu da mula negra
retorcida em farrapos, presa em ferros
como besta sem nome
teus gemidos no suplicio vil
estão gravados para sempre nas pedras
ganancia de reinóis e apátridas
embrutecidos pela febre da pedra amarela
consumiram aquelas carnes tisnadas
de homens negros cativos
pedra filosofal em pérfida alquimia  
forjaram destes couros retorcidos pela chibata
o ouro negro dos tiranos