sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Piazzolla, Gardel e Um Pouco Mais...





Com um tango de Piazzolla

sonando limpo

cristal partido vibrante

esvoaçando no ar

em câmera lenta

acordo do torpor matutino

levanto e abro os olhos

como despertar de recém nascido

que acaba de chegar

Choro contido

pois a vida chora todos os dias

embaixo na rua

e minhas mazelas

não são nada perante

os desafios do futuro

que assomam na porta

do mundo

testo minha compaixão

em cada pessoa que encontro

aborrecido pela pobreza de espírito

dos homens

Longa jornada empreendida

nos acordes desse louco bandoneon

Tango de Gardel

dançado junto

por una cabeza...por una cabeza...

é assim a Vida

caminho tortuoso de partidas

e retornos

idas e vindas

para lugar algum

E nossos pedaços ficam perdidos

jogados na estrada

pequenos cadáveres de lembranças

carne morta exposta

pessoas que já não somos

ladeira de abismo

sem retorno

que ao fim a vida 

leva à morte

em velhas fotos preto e branco




segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A Fabula da Ovelha em Pele de Lobo






Era uma vez
em tempo não muito distante
um rebanho de ovelhas
uma alcatéia de lobos
que na mesma pradaria
dividiam suas vidas
mas não era bem uma pradaria
mais parecia um sujo pantano
talvez uma charneca
se soubesse o autor
o que de fato isto significa
enquanto um bando fome passava
o outro sempre comia
enquanto um era faminto de grama
o outro carne fresca todo o dia
e assim conviviam
até chegarem a conclusão
que para organizar sua sina
um dia fariam uma eleição
Cada grupo seu candidato estabeleceu
mas logo a boataria
fez o bando de ovelhas duvidar
até mesmo da sua chefia
e os lobos assim venceram o pleito
com a ajuda de uma desgarrada ovelha
que das coisas de todos tudo conhecia
Quando acabou a eleição
e também sua serventia
no banquete da vitória foi devorada
sem nenhuma nostalgia


Moral da Estória: Todos sabem que ovelhas tem memória curta

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Ilium Descarnada





A Cidadela Incendeia
Vetustos sacerdotes de negras togas
da Torre de Cristal semeiam e procriam
aos milhares
ratazanas besuntadas em óleo cru
e atiçam as tochas ardentes vivas
propagam ainda mais
o fogo no coração da urbe
Livre ave voa célere 
para longe das coisas dos homens
mas não há mais abrigo
em lugar algum
nem ilha ou oásis distante
não existem santuários
nem mesmo para os fantasmas
sem nome
com seus grilhões e torturas
que ainda vagam na casa dos mortos
suas lápides em branco
mesmo assim foram profanadas 
pelas ratazanas ardentes
para escárnio dos tolos
que dançam nus 
em meio a fogueira
Cego pelas chamas
surdo pelos gritos de morte
das bestas em seu estertor final
reconhece de antemão 
o túmulo vazio
sombra de um passado
que nunca desejou
Nem Caim, Gengis Khan, Hitler
ou mesmo algum César
sanguinolento
poderiam causar mais dano 
ao mundo
que a fome bestial
da própria morte triunfante
daquele suicida de ideias
que pretende sufocar a si mesmo
e se afoga nas letras 
da própria verdade cotidiana
em meio a praça ardente
encarcerado entre medíocres, ímpios
e sátrapas cruéis
com seus estranhos ritos
e falsos deuses
Nem Baal, Moloch
ou algum deus Azteca
brindou tanto sangue
de jovens imberbes, donzelas
e crianças 
no holocausto diário das periferias
Após o assalto 
as naus de negras velas
içam mais uma vez suas flamulas 
insufladas por éolo
e levam para outras paragens
estes templários das trevas
em busca de mais vitimas...

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Cizânia




Foto: Orlando de Azevedo


Nada sobrou, nem ninguém
o último confronto
foi entre dois deles apenas
ambos sobreviventes únicos
da última hecatombe
fruto decadente
de torpes ideologias
e falsas religiões
as multidões se trucidaram
à míngua
Destruíram cada santuário
mataram todas as crianças
Os mais sensíveis suicidaram-se
em suas alcovas
Outros lutaram nas ruas
e quando faltaram as armas e munições
mataram-se a mordidas, com paus e pedras
e devoraram os mortos
pois comida outra já não havia
Usaram todos os seus artefatos de morte
que eram muitos
até o fim de cada nação da Terra
de cada tribo
de cada família
A última luta foi entre dois apenas
entre pedras devolutas calcinadas
que sobraram das muitas batalhas
e assim foi deles o fim
dois iguais espécimens
de estranha biologia  
silêncio afinal! 


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Ouro Preto




Decanta a Flor do meu espírito
em aromas cálidos noturnos
O lugar comum de liquidos rubros
tecendo ébria maresia
nas velhas casas assobradadas 
o sobe desce ladeira contínuo
das pedras curvas desgastadas
no torvelinho da noite que me cerca
sorvem seus velhos fantasmas
no sumidouro das almas
instante abissal das trevas
quando cavalgam fidalgos 
com seus atavios e alfaias douradas
e a escravaria geme 
subindo a colina 
mourejando nos ombros 
os sonhos dos espectros sombrios 
que permanecem no limbo dos casarios 
fincados naqueles alicerces de sangue
no porão das senzalas grito rouco ainda vibra 
lavra de ouro esgota a seiva
encharca o dorso nu da mula negra
retorcida em farrapos, presa em ferros
como besta sem nome
teus gemidos no suplicio vil
estão gravados para sempre nas pedras
ganancia de reinóis e apátridas
embrutecidos pela febre da pedra amarela
consumiram aquelas carnes tisnadas
de homens negros cativos
pedra filosofal em pérfida alquimia  
forjaram destes couros retorcidos pela chibata
o ouro negro dos tiranos


segunda-feira, 25 de julho de 2016

Olimpíada Rubra de Sangue




O cúmulo escárnio bate em falso
bala perdida, atirada a esmo 
na parede caiada 
onde cada porta se amontoa
em ruelas tortuosas 
vermelho canto espreme a gosma
enquanto o tirano sorri para a platéia
entre apupos e aplausos desconexos
no campo de marte
bandeiras flamam majestosas
pupilos correm pela quadra nua
sem destino certo
desnudos, as feridas expostas
carne dilacerada por tiros de metralhadora
ao longe a comunidade pára 
sitiada por tropas de seu próprio povo
fazem reféns mulheres e crianças
quase inocentes, quase livres, quase mortas
fogos, tiros de armas, sirenes, gritos de dor
escondem o ouro, a prata e o bronze
dardejam ósculos pútridos para as cameras
uma falsa calma esquarteja a vontade
grito calado na boca 
bebado arame cerca a avenida 
para não transbordar gente indevida
na festa dos nobres alvos
brancos ricos 
inexpugnáveis altas barricadas 
escondem a multidão pátria  
massa amanhada e desconforme 
que todo o dia clama pelo pão
e só recebe chumbo...


quarta-feira, 22 de junho de 2016

A Dança Macabra




Um louco santo profeta

perdido na mansa ilusão de seus devaneios

participa à multidão

estranha epifania

milenaristas de todos os tempos sempre evocam os pecados

da sinistra Babilonia terrena

Como sempre os poderosos erigem suas muralhas

e guarnecem seus fossos com bestas de guerra

Torres reluzentes emergem de Sodoma

das ferragens retorcidas pelos bombardeios cirúrgicos

Dos poderosos a morte faz sua dança macabra

sem consideração seus corpos jazem tesos

em ricos mausoléus como todos se vão

sem diferenças absolutas nesta curta vida

Tudo gira e transforma-se

como afirmou Heráclito

a água turva do rio nunca repete-se

em seu curso em direção à totalidade do oceano

Fluxo aparente e sem forma

a dança macabra

uma donzela segue desnuda

em direção à pedra do sacrifício

- Não há mais tempo...

Diz o santo servo:

- Não há mais tempo...