terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Violeta




Nome de florescência
cor de sangue seco e videira
acalanta a canção
da Latina América
lembra nosso destino
de liberdade e pátria livre
cidadania do povo pobre
do arrabalde
do grito lancinante de dor
que ainda repercute
dos porões sujos
escuto as forças das trevas
sussurrando nossos nomes
enquanto preparam os ganchos
e armam o pau de arara
não passarão, desta vez não passarão
impediremos a morte dos bons
cerrar fileiras contra a opressão
salvar Violeta Parra
desta vez não passarão!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A Partida de Charlie








Eles chegaram com as armas prontas


Não foi possível sequer pensar

Um grito ouvi de minha boca 

Lamina seca partida 

Sangue que se esvai 


Mente que aprisiona o corpo 


Em câmara lenta 

Caindo como um pássaro abatido 

Mirando a laje fria que cresce 

Em negação ao ato que encerra 

A dor que logo vai indo embora 

Para sempre 

Aguarda o túnel luminoso que liberta 

Matéria prima do mais puro vazio 

Alma confrangida se nega de ir embora 

Ao trilhar para a Luz 

Irresistível atração 

de tempo infinito instante 

Apega-se ao que não mais existe 

E não enxerga a passagem estreita 

Que leva a outra margem do Estige 

a tão delicada pétala 

De existência revolta 

Encerra o Livro da Vida


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Papagaios, sabiás e caturritas




Sinfonia solar 
Canto inumano 
de um bando de aves parlantes
regurgitando, lembrando:
Tu estás aqui !
Tu estás aqui !
Tu estás aqui !
Tu estás aqui!
No céu antes acabrunhado
o azul rompe o tecido
e o calor da primavera espalha
e acodem as aves
feliz algazarra
que troçam dos sentidos:
Isto és tu !
Isto és tu !
Isto és tu !
Isto és tu !
Nos galhos comem sementes
enquanto divertem seus cantos
aos incautos que despercebem
a completitude da Obra:
Nada importa !
Nada importa !
Nada importa !
Nada importa !
Advertem suas algaravias
vozes roucas  em coro
não fiam nem tecem suas vestes
 voejando loucas
na tarde que finda:
Cala a boca !
Cala a boca !
Cala a boca !
 Cala a boca !
Em transes de falsos sentidos
quedam os tolos
como aves parlantes
sobre frívolas ausências
presenças pobres de sentido
palavras poucas de individuos
que nunca falam o que pensam
Viva agora !
Viva agora !
Viva agora !
Viva agora !
Aquilo que já foi inexiste 
e o que virá será forjado
no sempre hoje
Não olvides !
Não olvides !
Não olvides !
Não olvides !
Essas são feras bípedes
que perderam suas penas
e já não podem avoar
pensam as voadoras
parlantes avoengas 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Antropoceno




Suspense
Suspensas no ar 
as quatro folhas da última árvore
pendentes, feias, retorcidas
enquanto alvoroça-se ao redor a turba 
Câmeras em miríades focam em tempo real
de todos os ângulos 
para todo o mundo
entre os céus de mármore puro 
cercado de passarelas e viadutos
a perder de vista
Uma réstia de luz persistente
desce incólume
sobre a árvore / selva
restante e finita
Curiosos acotovelam-se
e os guardiões da ordem
impõem do aborto uma segura distância
Ao som das trombetas
anunciam o portentoso evento
que logo se inicia
segue o cortejo
o carrasco marcha 
rosto coberto 
para não ser flagrado pela multidão
e mira seu cortante instrumento
em direção ao lenho
vai com maestria reduzindo o vegetal 
derrubando seus galhos
rompendo o velho tronco
pulverizando em lascas diminutas
disputadas pela massa rumorosa
 que brada prantos e hurras
A Nova Era se inicia 
dizem as mensagens das coloridas telas
o antropoceno reina afinal
Ao fim da peça bufa
os rebanhos humanos são tangidos
de volta aos seus lares-dormitórios-fábricas
onde espera a parca ração diária
lá habitam seguros, dizem seus donos
protegidos que estão dos bárbaros
comedores de carne humana
que habitam os cumes mais elevados
acima das nuvens 
onde vivem seu eterno festim
sempre impunes...




  

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Fonte Seca



Fonte seca
Vaca inerte
Céu Azul
sem mácula
Praça vazia
um banco me espera
vazio como eu mesmo
percebo então o velho
que me encontro
sem mais cantos ou vinho
nem pandegas noturnas
vazio de tudo
e percebo por prima volta
o tempo
como ferro em brasa
constranger meu peito

Falo comigo
e tento ninar
a criança que chora
aos soluços
ela pede que o carrossel mágico
inverta sua rota no tempo
para um novo começo



sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Sirius IV




Célere o mirranho corre pela prada longa
Foge entre lupulos flamejantes
onde cresce a longa herbácea lilás
que murmura sua frequencia latente   
A lua dupla adivinha a noite de terror que chega
ao entardecer da estrela vermelha
Ventilentos esvoaçam nas alturas 
soltando seus gritos 
mirando hambrientos o solo
em meio a penumbra de olobastos
enquanto o diminuto se vira como pode
escondido entre as frestas igneas 
subindo o acalanto
e fatalista murmura sua contrariedade
para a noite cheia que chega com a lua dupla
que lhe surprendeu imprudente
longe de abrigo seguro
a estrela decadente dá seu último alento
e desce por trás da alta cordilheira de Hórnes
tecendo o véu mortal da noite
momento fatidico, penetrante
subitamente interrompido pelo grito sinistro
de um arcobor noturno
o silvo longo assusta a miriade de comedores de pétulas
indefesos procuram a proteção de tocas profundas
a fera urgicana alto seu silvo de morte
e espalha o terror pela prada aberta
os pequenos se encolhem de pavor
e espreitam assustados a penumbra
até a herbácea se cala temerosa e murcha
enquanto o arcobor urgicana o agudo som terrível
que antecede o bote mortal sobre a presa
Lapidares criados em Sirius IV
na caloria das forjas intensas de Hefaístos
mil vulcões, lavas incandescentes 
pira sacra de onde surgiu a VIDA
do primeiro chilrear de decomposta
célula irradiante
Rochas silentes e superiores
escutam a voz muda Universa
- Quero Mais ! Quero Mais !
reverbera o clamor do núcleo fervente
Com a visão e o conhecimento do caos 
do primeiro momento da Criação
Sábias, nada respondem
para o vazio trono
O arcobor dá seu golpe mortal
abocanha de uma só vez o granítico mirranho
que queima delicioso 
consumido pelo fogo
de suas entranhas.





quinta-feira, 5 de junho de 2014

Profundezas (O Escafandrista)





O medo de perder a pessoa amada
é como água que afoga
e ao naufrago submerge
em exaustão 
Quando nada mais importa
e no imenso profundo mergulha 
na fria correnteza
da indiferença
sente o corpo débil
pesado como excrescência 
e no reflexo mira
a face da morte
que nunca o abandona
naufrago escafandro que aprisiona
pesada grua mergulha
ao abismo submerso
de sonhos perdidos
que como peixes abissais
iluminam profundezas
e somem céleres na escuridão
das eternas trevas
para não mais retornar

velho escafandro 
segue atirado 
na beira do cais
como sucata oca
olha o por do sol 
de sua glória
inerte e vazio
sombra sem alma