quinta-feira, 8 de junho de 2017

O Vazio das Palavras




O vazio de palavras
não ditas
que pretendem aflorar
sem culpa
Terrível página que
se esconde
e perturba
Sombrio caminho
de reflexão
numa noite
tempestuosa
Desce a correnteza
pela calçada nua
Dorme o sujo
andrajo
na soleira da porta
Esconde a mente
a tortura
de palavras não ditas
num pensamento
sem volta...


sábado, 15 de abril de 2017

Eu sou o Jaguar (Jauára ichê)






Sou o Jaguar
em terra de cego
que tem o olho
visão lunar 
noite viva penetrante 
que desvenda
a mata
bicho selvagem
que avoa num salto
arma bote certeiro
Malícia de fêmea
solta
Onça negra
- Não tenho dono
sussurra a danada 
ao meu ouvido 
baixinho
Não sou tamanduá
ou galo de capoeira
nem bugiu turmeiro
ou boi de criação
Eu sou a besta 
na alcova
bicho que se esconde
dilacera a carne
fresca.
presságio de mim mesmo
alma caçadora
em meio ao rebanho
que rumina mourejando
Do jaguar, o sonho
que se sonha só... 


terça-feira, 7 de março de 2017

Oração à Infância Perdida na Terra do Nunca





Criança incomoda
mais ainda quando fedida
e faminta
Pior quando chora
e agarra nossa roupa
implorando uns tostões
para comer
jogada na calçada 
vai comprar drogas 
por certo
seus pais onde estão?
juntando nosso lixo para poder
ganhar uns trocados?
A CULPA deve ser deles mesmo
por terem tantos filhos
os bastardos
achou ruim!? - leva prá tua casa
Que ousadia deles perturbar 
nossa vida cheia de esperanças
e beleza mundana
nossos refúgios e santuários
cult bares da moda
onde discutimos causas sociais
cheios de alcoólicos espíritos 
e afinco revolucionário
para nada precisar fazer
Aqueles seus rostos sujos
ameaçadores
feios pela pobreza tornada indigna
e tão fora do nosso elevado 
padrão estético eurocêntrico
de primeiro mundo
E esses pequenos são tantos
como os piolhos
Vão ser ladrões ou pior
se Deus assim quiser
podemos clamar depois 
que nada perde a sociedade
quando um deles é assassinado
pelos sicários públicos
ou preso em alguma instituição 
cela imunda lotada
que chamamos de "fase"
ou qualquer outro nome bonito
da novilíngua oficial
Assim nossa consciência 
não mais incomoda
e como tantos outros
viramos o rosto 
e fingimos não ver...




sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Índio




vivo, melhor morto
como adubo na terra
aperreado 
acossado
escravo
mendigo 
menina pobre
na cidade grande
puta
china
empregada
favelada
menino jogado
na estrada
sem nome
vagabundo
nem é gente
bicho selvagem
resto podre
bêbado
cachaceiro
sem terra
ilhado
no mato sem cachorro
maloqueiro
sujo
abandonado
sem medicina
ajuda, clemência,
paz
nem justiça




quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Medusa




Medusa
serpente de pedra
reflexo de Perseu
depois do asteroide a queda
seca permanente
nuvens densas de calor
efeito estufa
tempestades de areia
a perder de vista
cobrem a planície desértica
longa fila faminta se arrasta
o desfilar dos sáurios
em busca de verde alimento
só bruscamente interrompido
pelo ataque voraz de um predador
em sua rota final
mortal ciclo da vida
no planeta Terra
Aleph, alfa e ômega
lapso de tempo relativo
milhões de anos são minutos
para os titãs regentes da Criação
zero, um, zero, um 
seguem agora os homens
despossuídos de alguma esperança
cobrem os caminhos em todo o planeta
hordas ocupam as velhas rodovias
suas urbes infecundas 
incendeiam aos ventos
do destino
computadores, tvs
veículos de luxo, bugigangas
telefones que nada comunicam
queimam nas barricadas
som de artilharia distante
assusta a multidão insone
seguem sem destino ou abrigo
para lugar algum
ao final da Sexta Grande Extinção



terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Labirintos de Creta






Minotauro
Preso em labirinto de pedra
espera pela nova leva
de jovens de Atenas
Creta revivida
em cada megalópole
esparramada pelo mundo
holocausto das multidões
insones
labirintos de formas
como teia
que cobrem a face da Terra
torres frias de vidro
iluminadas ao sol
de mais um por 
que se ausenta 
aos poucos as massas
despossuídas 
arrastam suas roupas
maltrapilhas
do fundo dos esgotos
para a luz noturna  
dividem os lixos das sobras
dos monarcas insuspeitos
em busca de drogas baratas 
nas calçadas da fama
onde dividem seus corpos 
e ansias
com naves importadas
reluzentes
sons estridentes 
de karaoke irreal
que transborda da porta
do bar da moda
andróginos semideuses
jogam moedas
para a plebe suja que
se espreme sedenta
enquanto brincam 
com pequenas telas coloridas
o labirinto tem sede
de cada vez mais vítimas
moedor de carne
devorador de almas
Cila e Caribdis imortais
neste decadente ocaso
do Ocidente




sábado, 17 de dezembro de 2016

Aleppo Livre




Uma criança acode à rua
ao som dos gritos e sirenes
corre pelas vielas sujas 
de muitos bombardeios
atravessa a zona de fogo
onde snipers tudo observam
olha temerosa a colheita noturna
de corpos insepultos
que enchem as calçadas
vai até o caminhão
onde distribuem alimentos
vindos de nações estrangeiras
em meio a multidão que desesperada 
se acotovela
tenta alcançar o que distribuem
os oficiais na invernal cidade 
há poucos dias liberta
consegue algum pão
e da mão de um soldado 
recebe um simples brinquedo
que veio de outro lado do mundo
onde não há guerra
e volta correndo para casa
ou pelo menos o que sobrou dela
onde encontra o pequeno mano
que ansioso o espera
famintos dividem o alimento escasso
e num átimo de reflexão
clarão que ilumina as trevas
doa sua querida prenda 
ao menino mais novo 
que logo abre um sorriso
afinal das contas já é quase Natal!