quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
O Sol do Sahel
O que esconde o sol do Sahel ?
Esconde tua beleza o véu
na trilha ondulada
onde descansam as cabras
jorra a água, líquido sagrado do oásis
tamareiras fecundas são tocadas pela brisa
o som dos sinos avisa
lembra a hora tardia para a prece
no fim da tarde preguiçosa
nenhuma suspeita
que a paz deva ser quebrada
naquela parte do mundo
onde só os fortes sobrevivem
Homens consertam os caminhões
verificam armas e munições
rezam as ultimas orações
e partem...
Confrangido coração da amada
criança em choro convulsivo
Não entende essa guerra dos homens
que permeia sua sagrada morada
Olha a noite que se avizinha
Observa os pássaros de fogo
que diariamente cruzam esses caminhos
em suas estranhas derrotas
E faz uma prece singela para os santos
para que vivo o amado retorne.
Ao fim da tarde reúne na tenda
as mulheres e crianças do clã
os velhos patriarcas que jogam gamão
tomam o chá e contam estórias
sobre antigos combates e valentes guerreiros
para deleite dos pequenos sonhadores
Nessa noite o pássaro de fogo muda a trajetória
homens pilotam suas naves tecnológicas
conversam trivialidades
enquanto observam iluminados écrans
são pontos que se movimentam
brilham quilômetros à distancia
Basta o apertar dos botões
E o mundo na tela se expande a volta
em uma magnifica explosão
Do acampamento nada resta
Só o choro convulsivo do guerreiro
que retorna...
O que esconde o véu ?
O que esconde o sol do Sahel ?
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
O TAO
Serena sinfonia dos corpos celestes
Preenche os vazios da grande nave
Matriz de sonhos de um estranho mago
Que nascem e tomam formas de nuvens gasosas
Estrelas dormentes que livres se espraiam
No infinito templo à luz da aurora
Sua origem até mesmo os deuses desconhecem
Raiz, olho, fulcro do perpétuo abismo
Vazio de onde tudo toma a forma
E se torna do outro lado realidade invertida
No horizonte de eventos da Eternidade
Moto perpétuo do devir...
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Vamos fugir para onde estão os pássaros
Lembro dos anos da minha infância
Os anos de chumbo dos jovens mártires
Que tanta falta hoje fazem
Recordo-me dos veraneios na segunda metade do século passado
Das planuras com suas dunas brancas
Batidas pelo vento sul a se perder de vista
Nesse tempo a fauna corria solta
Em miríades de cores e formas
Aves devorando pequenos moluscos
Que forravam a areia ferindo os pés descalços da garotada
Após a praia o almoço, a larga sesteada
Pois ninguém era de ferro
Portas e janelas abertas para o vento varar
Casas de madeira com recortes de boneca
Bomba de poço que enchia o balde de folha de flandres
Meninos pobres vendendo dignamente rapaduras
- Puxaa ! - Puxaa !
Irrompia nas tardes indolentes a algazarra da meninada
Ao ouvir de longe o som da corneta do sorveteiro
O silêncio pachorrento da tarde que se cortava
Ladrão só existia na película do velho cinema
Que todo o verão repetia o mesmo programa na matiné
Quando interrompia a fita a turma vaiava gostoso
Por farra, coisa feita e esperada, parte da diversão
Quando a noite descia a Via Láctea majestosa emoldurada
Astros multicores do alto do céu pareciam cadentes
Enchia a escuridão o silencio das coisas paradas
Alimentando o regozijo da garotada
Que rompia o tédio das noites sem luz
Com loucas carreiras sem cercas e muros
Na praça o alto falante para os namorados tocava
Ajudava o flerte as ultimas músicas dos Beatles e Ronnie Von
Avisava o reclame do preço bom na venda do seu Libório
Que vendia a caderno para pagar no fim do mês
O som disciplinado sabia a hora certa de encerrar
Quando chegava o recolher
De lá para cá o mundo deu voltas revolutas
Meus cabelos agora estão alvos
O novo milênio como toda a coisa nova, tremenda
Cheio de bipes digitais
Assim o povo evita o silêncio que leva a reflexão
A praia já não abriga a vida selvagem
Para onde foram as aves ?
Onde se escondem os mariscos ?
Vamos fugir para esse refúgio também
Longe dos condomínios fechados
Já não fazem reclames na praça vazia
Sons amplificados fazem da idiotia uma vantagem
E a própria ignorância se pavoneia como certa
Onde estão as estrelas ?
A Via Láctea tirou férias faz tempo
Luzes feéricas dos vaga-lumes humanos tornam a escura noite
Mais perigosa
Bárbaros descem das colinas com seus carros de guerra 4x4
Ébrios, histéricos, sonoros
Animais em estranho ritual de acasalamento solitário
Anciões se refugiam em volta da tela colorida, hipnótica
Do admirável novo mundo
Revela a tela o esquecimento forçado, amnésia coletiva
Solidão de humanidade perdida
Soterra o individuo na cada vez maior multidão.
domingo, 16 de dezembro de 2012
Rua da Praia
Essência divina
os sons de quenas peruanas, andinas
o charango tocando afinado
a rua molhada pela chuva
a rua molhada pela chuva
passa o povo imperturbável
sem notar, cheio de pressa
mergulhados em seus mortais
compromissos
pensam acordar
enquanto permanecem adormecidos
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Revidavidavida
Vivência de
espetáculo, a ribalta
Inflige a redundância
das repetições
As imitações
das personas
A tolerância
aos beócios da platéia
E a
compaixão budista como árdua sina
ao artista.
Na
incompreensão do conteúdo
Ou na má
compreensão do texto
Que a cada
dia o brutaliza
E faz do
principal perversa forma
Roteiro dessa
peça bufa
Denominada vida.
Perde o
senso e o dogma transluz
Como falsa gema
Podre fruto de
frondosa árvore
Muito antiga.
Irrazoáveis
são as humanas crenças
Risíveis são
os temores ante a finitude
Fugazes são as
obras
Ruinas de
Ozimandias.
Mas da vida no
teatro a cena
Clama o
artista alto suas falas
Largos gestos
de comédia e drama,
Bordões
gastos, rotas flamulas
Pobre
cenário de circo mambembe
Espetáculo
findo desce o pano
Escapa da
vida o sopro
Mamulengo
sem o titereiro
Infantes
deuses riem-se e divertem-se
Das peripécias
dos pobres saltimbancos.
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Pequena Gaza
Dorme meu
pequeno
enrolado em panos
teu sagrado sono
sangre seco
na face imberbe
que já não
respira
Dorme meu
pequeno
sonha teus
lindos campos
que nunca
conheceste
cessa teu
choro agora
cessa a dor
de teu corpo
rasgado pela
bomba sem nome
olha
inocente, estupefato
a própria vida que se esvai
alma sumida
em sonhos
travessuras de
criança
pipa esvoaça
sobre o muro
olha a fria
mira da sentinela
estupefato
admira as
lindas cores
do objeto
que agride
a pedra fria
voa a nave
silenciosa
como ave de
rapina
explode o
débil corpo
silencia teu
riso inocente
por cima do arame farpado
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
MALÊ
FORMA MILICIA, QUEIMA QUILOMBO
DESTRÓI A TABA, QUEIMA A MATA
MATA MENINO NEGRO NA PORTA DE CASA
EXPULSA POSSEIRO, FAZ EMBOSCADA
MATA NA RUA, MATA NA ESTRADA
FUZILA BANDIDO, QUEIMA SEU CORPO
TORTURA, PÕE NO PAU DE ARARA
CRESCE A RAIVA INCONTIDA
CORRENTE QUE UM DIA ARREBENTA
ONDA QUE UM DIA RETORNA
INCÊNDIO QUE UM DIA SE ESPALHA
MATA BRANCO, MATA
MATA BRANCO,MATA...
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