quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

PADMA



Já teci mil palavras sobre o Padma Sagrado
Mistério que desabrocha da água inculta/poluída
Dizem os sábios mestres 
que nem todos crescem tão longe da luz
outros mal rompem o limite da linha d'agua
outros ainda mais se aproximam da morada do sol.

Gautama, o Tataghata
em sua célebre palestra sob a frondosa árvore
sem palavra alguma
exibiu simples flor para os discípulos
e naquele momento imediatamente
muitos alcançaram o samadhi
inclusive um pobre pastor 
que de longe avistava o Iluminado



Na superfície desse lago congelado segue o mestre 
mal tocando a fina camada de água pura
em cada leve pisada
evita romper o gelo novo da última geada 
do inverno que finda.

Nova primavera
Cada novo brôto verde de vida
é sorvido pelos viajantes
Sofrega vida que brilha e grita
na terra viva

Onde se esconde o Lótus Sagrado ?

Na trilha sinuosa observo ao longe
as costas do mestre que se distancia
Com seu cajado, passos trôpegos

Abro a porta da mente e retorno à rua
cheia dos gases de veículos apressados
insuspeitas cobaias da cidadela labirinto 
caminhos que não chegam a lugar algum 



domingo, 17 de fevereiro de 2013

SAMSARA





I

Arjuna e Krishna observam do alto da colina
Do carro de guerra o rei Pandava inquieto
avista a terrível cena que abaixo descortina
No amplo vale os dois exércitos se enfrentam
Dois blocos de nobres infantes manobram
elefantes de guerra, carros e cavalaria ligeira
cintilam as couraças dos guerreiros na aurora, 
ouvem-se os gritos de ordens da batalha 
Boca seca, mãos tremulas, frouxas pernas
o soberano guerreiro já pensa desistir e vacila 
antevendo o nefasto fim, a final carnificina
Nas falanges opostas habita sangue da mesma cepa
muitas viúvas prantearão a morte de tantos heróis
recolherão seus familiares corpos nos campos sem vida
resultado horrendo e certo da batalha fratricida.
Nota o  deus auriga a hesitação do chefe das hostes luminosas
sentimento que põe a perder  a guerra
o fim da vitória dos justos sobre os poderosos
mudar para sempre a face do destino dos futuros faustos dias
quando os deuses já não estiverem mais entre os homens
e a vida do planeta por um fio exista.
Sua verdadeira imago o pastor dos deuses por fim revela:
- Percebe Arjuna como tudo é ilusório !
Das hostes a finitude prospera e já faz sua amarga colheita 
Olha para mim soberano dos Pandavas
Eu sou Kala a morte que tudo transforma
Sou eu que levo as almas como seiva bruta
para as fornalhas dos infernos, eterna forja
Sou eu que transmigro as almas no seu Karma eterno
ao Destino somente subalterno  
que cinge o sinal  na fronte do destemido guerreiro  
e determina se sobrevirá ao valente ou não um novo dia 
ou será aniquilado nessa terra, para viver em outra futura harmonia
Hare Samsara que do Universo tudo condena
e até Vishnu comanda
Lei eterna do dia de Brahman
Sou foice sagrada que sega a colheita.



II

Grandiosa imagem de Vishnu se expande
tridente, báculo e coroa iridescente
mostra sua verdadeira aparência Krishna
para o pobre soberano temeroso e vacilante 
o pastor da cor do céu de sua boca exala 
os astros luminosos da infinita Criação
o Espaço sem fim que incha suas formas 
De sua voz que trona como magnifico trovão
Nesse redemoinho formidável espectros são sorvidos 
exércitos dos homens são destruídos
como formigas são esmagadas em um formigueiro
Hoje, agora e para todo o sempre 
numa interminável curva de sangue e morte
que se escoa eternamente pelo fulcro interminável 
da Roda Chamejante do Destino
Ilumina então o semblante do rei guerreiro
da aparição tenebrosa que testemunha
a compreensão vem como uma centelha
o esclarecimento como chave eterna
abre a porta do shatria soberano



III

Cada um cumpre seu papel nessa vida
Jogo de dados que só Brahman conhece as regras
eterna luta que do espaço avista
do coração o homem deve ser escravo 
da mente a ilusão de maya esconde
uma falsa eternidade ao homem
que pretende o corpo proteger 
e torna a existência como verme que se enrosca
em galho de velha árvore apodrecida 
derrubada em tênue ventania
ou levado por correnteza sobre fina folha
que se afoga logo ao fim da vida
Assim na Terra tudo nada muda 
e fenece o que mais importa
a eterna alma, falso Karma 
minúsculo fogo que se extingue
na imensa forja de Brahman.


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Sol do Sahel





O que esconde o sol do Sahel ?
Esconde tua beleza o véu 
na trilha ondulada 
onde descansam as cabras
jorra a água, líquido sagrado do oásis
tamareiras fecundas são tocadas pela brisa
o som dos sinos avisa 
lembra a hora tardia para a prece 
no fim da tarde preguiçosa 
nenhuma suspeita 
que a paz deva ser quebrada
naquela parte do mundo
onde só os fortes sobrevivem
Homens consertam os caminhões
verificam armas e munições 
rezam as ultimas orações 
e partem...

Confrangido coração da amada

criança em choro convulsivo
Não entende essa guerra dos homens
que permeia sua sagrada morada
Olha a noite que se avizinha 
Observa os pássaros de fogo
que diariamente cruzam esses caminhos 
em suas estranhas derrotas 
E faz uma prece singela para os santos
para que vivo o amado retorne.
Ao fim da tarde reúne na tenda
as mulheres e crianças do clã
os velhos patriarcas que jogam gamão
tomam o chá e contam estórias
sobre antigos combates e valentes guerreiros
para deleite dos pequenos sonhadores

Nessa noite o pássaro de fogo muda a trajetória

homens pilotam suas naves tecnológicas
conversam trivialidades 
enquanto observam iluminados écrans
são pontos que se movimentam
brilham quilômetros à distancia
Basta o apertar dos botões
E o mundo na tela se expande a volta
em uma magnifica explosão
Do acampamento nada resta 
Só o choro convulsivo do guerreiro 
que retorna...

O que esconde o véu ?

O que esconde o sol do Sahel ?





quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O TAO




Serena sinfonia dos corpos celestes

Preenche os vazios da grande nave 

Matriz de sonhos de um estranho mago     

Que nascem e tomam formas de nuvens gasosas

Estrelas dormentes que livres se espraiam

No infinito templo à luz da aurora 

Sua origem até mesmo os deuses desconhecem

Raiz, olho, fulcro do perpétuo abismo

Vazio de onde tudo toma a forma

E se torna do outro lado realidade invertida 

No horizonte de eventos da Eternidade

Moto perpétuo do devir...


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Vamos fugir para onde estão os pássaros



Lembro dos anos da minha infância
Os anos de chumbo dos jovens mártires
Que tanta falta hoje fazem
Recordo-me dos veraneios na segunda metade do século passado 
Das planuras com suas dunas brancas
Batidas pelo vento sul a se perder de vista
Nesse tempo a fauna corria solta
Em miríades de cores e formas
Aves devorando pequenos moluscos
Que forravam a areia ferindo os pés descalços da garotada
Após a praia o almoço, a larga sesteada
Pois ninguém era de ferro
Portas e janelas abertas para o vento varar
Casas de madeira com recortes de boneca
Bomba de poço que enchia o balde de folha de flandres
Meninos pobres vendendo dignamente rapaduras
- Puxaa ! -  Puxaa !
Irrompia nas tardes indolentes a algazarra da meninada
Ao ouvir de longe o som da corneta do sorveteiro
O silêncio pachorrento da tarde que se cortava
Ladrão só existia na película do velho cinema
Que todo o verão repetia o mesmo programa na matiné
Quando interrompia a fita a turma vaiava gostoso
Por farra, coisa feita e esperada, parte da diversão
Quando a noite descia a Via Láctea majestosa emoldurada
Astros multicores do alto do céu pareciam cadentes 
Enchia a escuridão o silencio das coisas paradas  
Alimentando o regozijo da garotada
Que rompia o tédio das noites sem luz
Com loucas carreiras sem cercas e muros
Na praça o alto falante para os namorados tocava
Ajudava o flerte as ultimas músicas dos Beatles e Ronnie Von
Avisava o reclame do preço bom na venda do seu Libório
Que vendia a caderno para pagar no fim do mês
O som disciplinado sabia a hora certa de encerrar
Quando chegava o recolher

De lá para cá o mundo deu voltas revolutas
Meus cabelos agora estão alvos 
O novo milênio como toda a coisa nova, tremenda
Cheio de bipes digitais 
Assim o povo evita  o silêncio que leva a reflexão
A praia já não abriga a vida selvagem
Para onde foram as aves ?
Onde se escondem os mariscos ?
Vamos fugir para esse refúgio também
Longe dos condomínios fechados
Já não fazem reclames na praça vazia
Sons amplificados fazem da idiotia uma vantagem
E a própria ignorância se pavoneia como certa
Onde estão as estrelas ?
A Via Láctea tirou férias faz tempo
Luzes feéricas dos vaga-lumes humanos tornam a escura noite
Mais perigosa
Bárbaros descem das colinas com seus carros de guerra 4x4
Ébrios, histéricos, sonoros 
Animais em estranho ritual de acasalamento solitário
Anciões se refugiam em volta da tela colorida, hipnótica
Do admirável novo mundo
Revela a tela o esquecimento forçado, amnésia coletiva
Solidão de humanidade perdida
Soterra o individuo na cada vez maior multidão.



domingo, 16 de dezembro de 2012

Rua da Praia



Essência divina

os sons de quenas peruanas, andinas

o charango tocando afinado

a rua molhada pela chuva

passa o povo  imperturbável

sem notar, cheio de pressa

mergulhados em seus mortais 

compromissos

pensam acordar

enquanto permanecem adormecidos



terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Revidavidavida




Vivência de espetáculo, a ribalta
Inflige a redundância das repetições
As imitações das personas
A tolerância aos beócios da platéia
E a compaixão budista como árdua sina
ao artista.
Na incompreensão do conteúdo
Ou na má compreensão do texto
Que a cada dia o brutaliza
E faz do principal perversa forma
Roteiro dessa peça bufa
Denominada vida.
Perde o senso e o dogma transluz
Como falsa gema
Podre fruto de frondosa árvore
Muito antiga.
Irrazoáveis são as humanas crenças
Risíveis são os temores ante a finitude
Fugazes são as obras
Ruinas de Ozimandias.
Mas da vida no teatro a cena
Clama o artista alto suas falas
Largos gestos de comédia e drama,
Bordões gastos, rotas flamulas
Pobre cenário de circo mambembe
Espetáculo findo desce o pano
Escapa da vida o sopro
Mamulengo sem o titereiro
Infantes deuses riem-se e divertem-se
Das peripécias dos pobres saltimbancos.