quarta-feira, 11 de abril de 2018

Katana




Cortar o Tempo
feito faca / katana
espada curta
movimento rápido
que sangra
o corte
angular
da alma
cruzar
a rua
feito robot
míssil teleguiado
em busca
do alvo
ronin sem dono
nem causa

Quando vc.
me deixou
no desiludir
da vida
percebi
afinal
que nada restara
entre nós
ou foi o contrário?
pois nada termina
na véspera
de acontecer

sexta-feira, 16 de março de 2018

Negra Marielle




Era negra sua sina
de pessoa 
que nasceu
num país de mestiços
degredados
Era negra sua tez
de beleza infinda
sorriso franco
que tudo alumia
Coragem de mulher
que conhece sua sina
jogo de cartas marcadas
pelo demonio
pastor de igreja
polícia
milícia
soldado
patrão
mestiço 
quase branco
A morte lhe chegou 
sorrindo
Tocaia bruta
à bala
Melhor morrer
que viver nas mãos
dos carrascos 
à espera da justiça
que nunca chega
Melhor morrer...


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Tempo, tempo, tempo, tempo...

Cronos tece o fio das calendas
rubras sendas
celebra a luta dos homens
sobre a Terra
como átimo suspiro
dos deuses
fogo que se acende
na fuga chama
do fósforo que se apaga
assim que finda
luz que descaminha
cinza fria
matéria escura
que permeia o Todo
que não vemos quando olhamos
sua fronte
que não escutamos quando
sopra a corrente
de cada minuto insolente
que escapa
vida tortuosa
aventura cotidiana
devora a carne
dos filhos
em sua labuta
silenciosa
rio caudaloso
abismo
sem volta
oração de regresso
da alma

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Buraco Negro




Tenho uma tristeza profunda
Ferida aberta
No fundo do meu coração
Que revoluteia
Como ralo de pia
Sugando tudo de bom
Que num dia restou
De olhares
Sorrisos e carinhos
Passeios de mãos dadas
Na beira da praia
Dos lençóis perdidos
Das risadas
De tudo que resta
Sorve e some...


terça-feira, 4 de julho de 2017

Bala Perdida




Sou a bala perdida
no corpo da criança
que ainda está para nascer
Sou a Mãe África
que estende sua colcha
ao longo do passeio
cheia de produtos
Made in China
Habito corações/continentes
hemisférios e orientes
expulso meus filhos
em profusão
das minhas 
grávidas entranhas 
fossas abissais 
em direção ao centro
do vórtice luminoso
turbilhão flutuante
dos mares ignotos
em busca da riqueza
dos sonhos infecundos
e da paz dos afogados
sem nome
Sou daqueles jovens negros
ou quase pretos
corpos insepultos
que habitam todas as periferias
Sou aquela que prantea
o menino sem rosto 
jogado no asfalto
servido ao holocausto
das feras fardadas
Sou quem resiste
como pode
todo o dia
aos grilhões
de mãos vazias
cometendo o maior
de todos os crimes
contra a humanidade
dos tiranos sem mácula
que é sobreviver


quinta-feira, 8 de junho de 2017

O Vazio das Palavras




O vazio de palavras
não ditas
que pretendem aflorar
sem culpa
Terrível página que
se esconde
e perturba
Sombrio caminho
de reflexão
numa noite
tempestuosa
Desce a correnteza
pela calçada nua
Dorme o sujo
andrajo
na soleira da porta
Esconde a mente
a tortura
de palavras não ditas
num pensamento
sem volta...


sábado, 15 de abril de 2017

Eu sou o Jaguar (Jauára ichê)






Sou o Jaguar
em terra de cego
que tem o olho
visão lunar 
noite viva penetrante 
que desvenda
a mata
bicho selvagem
que avoa num salto
arma bote certeiro
Malícia de fêmea
solta
Onça negra
- Não tenho dono
sussurra a danada 
ao meu ouvido 
baixinho
Não sou tamanduá
ou galo de capoeira
nem bugiu turmeiro
ou boi de criação
Eu sou a besta 
na alcova
bicho que se esconde
dilacera a carne
fresca.
presságio de mim mesmo
alma caçadora
em meio ao rebanho
que rumina mourejando
Do jaguar, o sonho
que se sonha só...