segunda-feira, 25 de julho de 2016

Olimpíada Rubra de Sangue




O cúmulo escárnio bate em falso
bala perdida, atirada a esmo 
na parede caiada 
onde cada porta se amontoa
em ruelas tortuosas 
vermelho canto espreme a gosma
enquanto o tirano sorri para a platéia
entre apupos e aplausos desconexos
no campo de marte
bandeiras flamam majestosas
pupilos correm pela quadra nua
sem destino certo
desnudos, as feridas expostas
carne dilacerada por tiros de metralhadora
ao longe a comunidade pára 
sitiada por tropas de seu próprio povo
fazem reféns mulheres e crianças
quase inocentes, quase livres, quase mortas
fogos, tiros de armas, sirenes, gritos de dor
escondem o ouro, a prata e o bronze
dardejam ósculos pútridos para as cameras
uma falsa calma esquarteja a vontade
grito calado na boca 
bebado arame cerca a avenida 
para não transbordar gente indevida
na festa dos nobres alvos
brancos ricos 
inexpugnáveis altas barricadas 
escondem a multidão pátria  
massa amanhada e desconforme 
que todo o dia clama pelo pão
e só recebe chumbo...


quarta-feira, 22 de junho de 2016

A Dança Macabra




Um louco santo profeta

perdido na mansa ilusão de seus devaneios

participa à multidão

estranha epifania

milenaristas de todos os tempos sempre evocam os pecados

da sinistra Babilonia terrena

Como sempre os poderosos erigem suas muralhas

e guarnecem seus fossos com bestas de guerra

Torres reluzentes emergem de Sodoma

das ferragens retorcidas pelos bombardeios cirúrgicos

Dos poderosos a morte faz sua dança macabra

sem consideração seus corpos jazem tesos

em ricos mausoléus como todos se vão

sem diferenças absolutas nesta curta vida

Tudo gira e transforma-se

como afirmou Heráclito

a água turva do rio nunca repete-se

em seu curso em direção à totalidade do oceano

Fluxo aparente e sem forma

a dança macabra

uma donzela segue desnuda

em direção à pedra do sacrifício

- Não há mais tempo...

Diz o santo servo:

- Não há mais tempo...


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Homeostase




Membrana osmótica
camisa de vénus
recobre o terminal inteligente
em orgasmo de homeostasia
como a ostra
se prende na casca da concha
elétrica memória
pulsa cada palavra
sobre o teclado
imersa no seu casulo,
sem limites ou horizontes
acredita que o bit eterno
verdade absoluta salvadora
emissor/ receptor feedback
círculo vicioso que vai e retorna
alimenta a forma da mensagem
pulso que nada serve
na mão sinistra sem dono
que comanda o verme
domestica o animal
na evolução microestática
orgânico apocalipse
desabrocha borboleta biônica
em voo virtual 
em direção ao vazio amplexo 
da aracneana teia mundial


Homeostasia ou homeostase é a propriedade de um sistema aberto, especialmente dos seres vivos, de regular o seu ambiente interno, de modo a manter uma condição estável mediante múltiplos ajustes de equilíbrio dinâmico, controlados por mecanismos de regulação inter-relacionados.

Termo também relacionado ao controle de sistemas cibernéticos define a interação de entrada e saída de um sistema e sua regulação da saída através do feedback de informação que controla os pulsos de entrada, seja ela de que natureza for.

sábado, 14 de maio de 2016

Vermelho Ocaso (Tezcatlipoca)*





Esquelético corcel cavalga Tezcatlipoca 
ao longe soa a trombeta finda
lençol negro varre toda a Terra
caracol de revolutas nuvens
de vermelha tarde perpétua
ocaso de gigantes em ferrenha luta
Vagueia o tolo, enquanto isso
pelas ruas e vielas da cidadela
com seu colorido cajado
animal sem dono ou pátria
pulando e cantando trejeitos
de sua música sem nexo
e o vigia da torre
aborrece taciturno
o olhar da guarda
na imunda eterna cela da ameia
onde o nada nunca muda





*Tezcatlipoca, deus dos mejicas da providência, da matéria e o padrão invisível da noite, o impalpável, ubiquidade e crepúsculo, o governante do Norte.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Fragmentos Escritos encontrados dentro de Uma Velha Bota Militar no Campo de Batalha da Terceira Guerra




Da Cidade Alta escutaram-se os fogos de artificio
Espoucaram como tiros de certeira arrogância
Anunciaram, os barões e seus asseclas: 
Nova Era Sombria
Enquanto o resto da Urbe silenciava temerosa
Cheia de lamentos escondidos
Nos subterrâneos
Lá na parte baixa onde habita o povaréu
Lágrimas cobriram as vias sujas
Chuva pálida que adivinhava
Depois de um sonho tenue de liberdade fugidia
A mente que de repente desperta
Pior é acordar novamente escravo em grilhões
E marchar obediente no dia seguinte
Junto a indiferente multidão, como besta pária
Não cabe mais uma grande caixa em pequena gaveta
Urge resistir ao opressor em todas as frentes
Só desta vez vamos dar o trôco
Destruir seus trilhos
Quebrar suas máquinas
Queimar suas safras
Ocupar suas terras
Ouvir os lamentos enquanto enterram seus mortos
Só desta vez, custe o que custar
Se não forem eles seremos nós e os nossos a lamentar depois...
   

domingo, 13 de março de 2016

O ENLOUQUECIDO





A VIDA É COMO LIVRE MANICÔMIO
PENSA O "NORMAL" EM SUA REDE DE INTRIGAS
O QUANTO FINGE NA EXISTÊNCIA A TOLERANCIA
AO PRÓXIMO CATIVO
E O SÁBIO REVOLUTEIA SUA DANÇA
COMO ARREMATADO LOUCO
NA URBE ACASTELADA
DE MEDO E TERROR
BRIGAM DE FOICE OS CEGOS
DEDOS ANELADOS DE PEDRAS PRECIOSAS
TEMEM PERDER SUAS JÓIAS
MAS NÃO OS DEDOS DECEPADOS
NA CURTA MEMÓRIA INSTANTANEA
DO QUE FOI ONTEM SE NÃO FOI AGORA ?
O VERME REMEXE DENTRO
DO CORPO AINDA INSEPULTO
RASGANDO O VENTRE
DO DEUS MORTO
EM BUSCA DA ETERNA FELICIDADE
CURTA MEMÓRIA
QUE QUANDO O FARTO ALIMENTO FINDA
NOVA FOME ASSOLA E ASSOMA
AO DOBRAR A SINUOSA VIA
EFIGIES DE REIS ARCAICOS E TRONOS DE PEDRA CINGEM
O MUNDO DECADENTE
NÃO PERCEBE O FLUXO QUE FENECE
TODO O DIA
ENQUANTO UM NASCITURO BERRA
SEU GRITO PRIMAL
DE MORTE VIDA
NA CONDIÇÃO INVERSA
DESSA DIMENSÃO DESPERTA



domingo, 24 de janeiro de 2016

AION



Centelha luminescente,
Fóton, luz que vira fragmento
de coisa viva
brilha, vibra e morre veloz
 num átimo percorre
o vazio
de toda a Criação