sábado, 11 de janeiro de 2014

Apologia da Servidão Animal - Os Loucos Primatas e seus Fiéis Companheiros




Los perros ladram por la calle
para carroças vazias
Céleres correm pela grade
exercendo sua labuta 
com maestria
Não sabem os cavalos o que carregam
na suas carrocerias
Nem os cães percebem
qual é a serventia
de correr pela cerca todo o dia
Cansados, esperam ansiosos
afagos dos homens
que se acreditam seus donos.



terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Epístola Sacra





Flor tensa envolve a Vulva Sagrada
de Samarcanda
No festival do Solstício
os sacerdotes carregam em procissão
pelas vielas 
a Vagina de Pedra
enquanto a choldra embevecida
admira a Imagem Encarnada
que sangra
Imaginam os fiéis 
que só assim
podem semear seus campos

Desmedida noite
geme meu corpo na cela
flagelo meus membros
com escaravelhos dourados
torturo minha própria carne
em ato de contrição
dor lancinante acomete
quando a chibata rasga 
a carne nua
Meus berros são preces
purificadoras
Na estreita ventana
penetra foice pálida
a Lua Nova

No reino dos crentes
as forças das sombras
perpetuam o esforço
de desvida
Como colunas 
suportam os fiéis 
a nave central do templo
da fé obstinada
Posto o rebanho
o bispo amola
as adagas do matadouro
e seus acólitos 
cercam as presas
enquanto dos tolos
jorram as dádivas
As crenças humanas são correntes
que aprisionam seus donos
para nunca mais... 

Na negação da Epifania
o pregador de Nietzsche
em seu "Zaratrusta"
prega a precariedade da matéria
como única forma Absoluta
Mas entende o Sábio 
que o Ser e o Não-Ser
que o Crer e o Não-Crer
são uma só e mesma coisa
para o crente e o ateu
a mesma radicalidade
que flui em águas sangrentas
fossas fundas de corpos sem nome
ao relento
despojados da própria
humanidade





quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Brincando na Bola de Barro




Turbilhão sona
sem trono ou pressa
rasga a ventana
luz liquida 
que decai a tarde
Montanha
rocha dura é tragada
a metrópole invade
teu corpo dilacerado
devora o ventre verde
e o vento forte
cobra do homem
a proteção

Onde está Camelot
que abrigou Arthur e seus pares?
O palácio de Menphis
onde reinava Akhenaton
virou areia seu sonho
Até Atlântida das altas muralhas
o oceano tragou
nem um sinal restou
Quanto ainda vão perdurar
as novas torres da vaidade
dos homens 




sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Mandela






Manda, manda, Mandela,
Mandiba de tanta paz
Quebrou a lança o velho guerreiro
virou estadista de homens
sem raça, côr ou conceito
que pudesse lhe governar
Ele foi um desses poucos
que de Aruanda se trás
que em vez do machado de guerra
trouxe a união ao seu povo
e entendimento
que a vingança assassina
compaixão contra o algoz
sabedoria que ilumina
e ao herói eterniza
Salve Mandela, Mandiba
Hoje Aruanda em festa
recebe tua alma vivaz


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Mundo e o Mago







Secundado no cortejo pelo Imperador 

Foi decretado como certo meu enforcamento 

Balançando no ramo torto do carvalho

Perdido como louco pelo Caminho

Como todo viajante sigo sózinho

Em direção ao abismo que se avizinha 

Enganando o Triunfo dessa verdade

Heremita da vida sigo sózinho 

A verdade nua que me rejeita 

Como primata solto sem o seu bando 

Sigo sózinho pelo Caminho

Meu ronco eu grito no desengano




segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Fera Encurralada





Sem  inspiração 
o vácuo e a forma
preenche o grande oco
estival caverna, 
ruína de priscas eras
esconde nas suas profundezas
os mágicos desenhos dos Antigos

Iniciados descem por cordas
ao sepulcro da rocha
e registram com tição e cal
o passado de glória 
caçada eterna 
da tribo humana

O cheiro da pele recém curtida
cobre meu dorso
presa raivosa se camufla
nas sombras do labirinto
Ouço num crescendo
o som do ronco da fera
escondida
Sua indistinta forma 
ameaçadora
preenche a cave sinistra
com vela de sebo
minha tênue luz ilumina
a estreita passagem
borduna em riste
aguardo o iminente ataque
com certo enfado
sem medo
pensei ter prendido a fera
no meus mágicos riscos
ouço seus gritos e gemidos
aguardo o mortal combate
que me espera
em busca de rápido alivio
pensamento atroz ao fim
do túnel que me espreita:
Serei eu ou serei fera ?


   

Salvem as Baleias !








Servo cativo feito máquina

quando percebe sonhos

sente pânico 

vertigem indigente decomposta 

cresce o cerebelo 

em direção ao hipotálamo 

na minúscula entranha 

células ditadoras 

exigem sacrifícios de sangue 

tenso híbrido 

na linha de montagem 

partículas de DNA 

pequenos arcabouços 

se desfazem 

ligações quimicas 

neurais 

filas de elétrons 

sequencia lógica 

marcham em quântica 

ordem unida 

declamam os sábios: 

"É a tendencia da matéria bruta criar a vida" 




Centimetros cúbicos em bilhões de eras

do profundo espaço

planetóides em imenso impacto

trouxeram a massa líquida da vida

para a dura superfície da Terra



Somos portanto água revolta

caldo turvo

de poeira de estrelas

vida perene

viajante

que permeia a eternidade