sábado, 14 de maio de 2016

Vermelho Ocaso (Tezcatlipoca)*





Esquelético corcel cavalga Tezcatlipoca 
ao longe soa a trombeta finda
lençol negro varre toda a Terra
caracol de revolutas nuvens
de vermelha tarde perpétua
ocaso de gigantes em ferrenha luta
Vagueia o tolo, enquanto isso
pelas ruas e vielas da cidadela
com seu colorido cajado
animal sem dono ou pátria
pulando e cantando trejeitos
de sua música sem nexo
e o vigia da torre
aborrece taciturno
o olhar da guarda
na imunda eterna cela da ameia
onde o nada nunca muda





*Tezcatlipoca, deus dos mejicas da providência, da matéria e o padrão invisível da noite, o impalpável, ubiquidade e crepúsculo, o governante do Norte.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Fragmentos Escritos encontrados dentro de Uma Velha Bota Militar no Campo de Batalha da Terceira Guerra




Da Cidade Alta escutaram-se os fogos de artificio
Espoucaram como tiros de certeira arrogância
Anunciaram, os barões e seus asseclas: 
Nova Era Sombria
Enquanto o resto da Urbe silenciava temerosa
Cheia de lamentos escondidos
Nos subterrâneos
Lá na parte baixa onde habita o povaréu
Lágrimas cobriram as vias sujas
Chuva pálida que adivinhava
Depois de um sonho tenue de liberdade fugidia
A mente que de repente desperta
Pior é acordar novamente escravo em grilhões
E marchar obediente no dia seguinte
Junto a indiferente multidão, como besta pária
Não cabe mais uma grande caixa em pequena gaveta
Urge resistir ao opressor em todas as frentes
Só desta vez vamos dar o trôco
Destruir seus trilhos
Quebrar suas máquinas
Queimar suas safras
Ocupar suas terras
Ouvir os lamentos enquanto enterram seus mortos
Só desta vez, custe o que custar
Se não forem eles seremos nós e os nossos a lamentar depois...
   

domingo, 13 de março de 2016

O ENLOUQUECIDO





A VIDA É COMO LIVRE MANICÔMIO
PENSA O "NORMAL" EM SUA REDE DE INTRIGAS
O QUANTO FINGE NA EXISTÊNCIA A TOLERANCIA
AO PRÓXIMO CATIVO
E O SÁBIO REVOLUTEIA SUA DANÇA
COMO ARREMATADO LOUCO
NA URBE ACASTELADA
DE MEDO E TERROR
BRIGAM DE FOICE OS CEGOS
DEDOS ANELADOS DE PEDRAS PRECIOSAS
TEMEM PERDER SUAS JÓIAS
MAS NÃO OS DEDOS DECEPADOS
NA CURTA MEMÓRIA INSTANTANEA
DO QUE FOI ONTEM SE NÃO FOI AGORA ?
O VERME REMEXE DENTRO
DO CORPO AINDA INSEPULTO
RASGANDO O VENTRE
DO DEUS MORTO
EM BUSCA DA ETERNA FELICIDADE
CURTA MEMÓRIA
QUE QUANDO O FARTO ALIMENTO FINDA
NOVA FOME ASSOLA E ASSOMA
AO DOBRAR A SINUOSA VIA
EFIGIES DE REIS ARCAICOS E TRONOS DE PEDRA CINGEM
O MUNDO DECADENTE
NÃO PERCEBE O FLUXO QUE FENECE
TODO O DIA
ENQUANTO UM NASCITURO BERRA
SEU GRITO PRIMAL
DE MORTE VIDA
NA CONDIÇÃO INVERSA
DESSA DIMENSÃO DESPERTA



domingo, 24 de janeiro de 2016

AION



Centelha luminescente,
Fóton, luz que vira fragmento
de coisa viva
brilha, vibra e morre veloz
 num átimo percorre
o vazio
de toda a Criação

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Fome de Pedra





Caiu a ficha
Cedeu a caixa que apoiava a finta
Lata furada no fundo do esgoto
veio boiando na bosta viva
Peguei a danada e fiz a pita
acendi a pedra e queimei as tripas
Alucinei e deitei mole na pedra
Luz amarela surgiu do fundo
Subi a lomba e desci no muro
Cai sentado debaixo do entulho
É onde vivo ou quase consinto
colocar meu corpo no limbo
Perdi a coisa caiu do bolso
Olhei pro esgoto, pobre regaço
Cai em prantos e lambi os pratos
Veio nova a fome de pedra
O brilho num repente perdeu o lume
Nova carga exige a mente
num bagaço tornei-me
o fundo do buraco não acaba
o fundo do poço nunca finda
caiu mais uma vez a ficha...



terça-feira, 13 de outubro de 2015

Revelações




Falsos Profetas anunciam dos altares nos Templos
É chegada a hora do Fim dos Tempos
Do arrebatamento dos “bons”
E a massa ignara apupa
Uiva sua torpeza
Lançando óbolos para os demônios
Que espreitam
Em seus olhares pútridos de crentes
Profecia auto imposta
Vermes comem as sobras da ceia
Entranhas dilaceradas da Mãe Gea
Mamal sem pelo / feto maduro
Escorre sua gosma
Brota eterno nascituro
E por onde lavra seu arado
A Mãe Terra é morta
Enquanto canta seus hinos ao Holocausto
Nas masmorras de concreto
Perdido em claustros
Lembrando as ricas eras
Areia fina escoa
Para o fundo da Ampulheta finda...



quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O TERROR...O TERROR...! (AYLAN)








O Terror...o Terror !
O frio mármore pontico das vagas 
foi teu final acalanto
Sequer o terror e a morte
Por ti compadecidos permitiram
Que o tempo tresandasse maior
Ou muito longo mais fosse teu sofrimento 
no último respiro exasperado
afogado nas profundezas do oceano
Braços perdidos da querida mãe ignorada
Que desceu contigo os abismos
Rogando a clemência das intempéries
Esse teu filho, pequena criança desterrada
De nossa humanidade perdida 
espectadores 
como somos todos
embrutecidos pela tela inodora 
já não pranteamos sua perda
mas a nossa 
Pois não foi dele a culpa da morte e do terror extremo
Mas fomos nós que perdemos nossa essência
Em algum momento
Com a imagem da pequena figura inerte
Jogada como um pet vazio numa praia
Barbarizada como coisa corriqueira
De um mundo superlotado 
Nós falhamos em algum momento
E já não conseguimos mais resgatar nossa empatia
até quando distante ?
O Terror...o Terror !