terça-feira, 25 de junho de 2013

Sujos Degredados




Desterrado marujo
mira a linha do horizonte
deplorando a própria sorte
de criminoso naufrago
abandonado pela Nau Capitania

Recorda com triste nostalgia
as cidadelas infectas,
sarjetas à céu aberto,
a peste negra
e as tabernas sujas
onde indolente o rum sorvia

Olha com desprezo de Gargantua
os nus selvagens da terra ao seu redor
onde prisioneiro habita
Bestas indecentes 
que adoram banhar-se em águas puras
Não percebem que enfraquecem
no corpo os humores da vida?

Não é por nada que desde sua vinda
morre um todo o dia.

Saudade que não passa
doença que se arrasta
e contamina futuras gerações
que permanecem na praia
como marujo condenado
olhando o horizonte
a espera da nau que nunca regressa...

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Abatis Fortunattis






Para cada árvore existe uma ninfa protetora
Dizem os alfarrábios da magia
Na essencia da seiva que flui
brota mágica energia 
O deslumbre da aurora
todo o dia tinha da minha janela 
 frondosa companheira
onde lindos pássaros habitavam
e alegravam com seus cantos as redondezas
Insensível humano certa feita 
por estranha estética e idiotia
resolveu abater o pobre ser 
que de sua sombra a vida abrigava
e a ninfa chorosa viu cair
suas ramas em triste madrugada
A obra de doentia  estética 
revestia de cimento a calçada
Da janela olhei para o mal feito
e clamei da ninfa a certa vingança 
e o chão abriu-se aos poucos todos os dias
formando imensa vossoroca
Imaginem o que espera o sujo porco
que destruiu centenas de árvores em um só dia
burgomestre de malfadada cena
Terá terrível morte em agonia
Assim comanda o dito sortilégio
conjurada praga
das ninfas que do luto de seu pranto
passada a tristeza vem a ira 
abrirão as entranhas do mal feitor
com machadas
de onde jorrará sua humana seiva
em dantesca tortura
assim foi dito pela fada

sábado, 13 de abril de 2013

Amor em tempos de Fúria








Meninos mascarados 
lembram aos adultos domesticados
que ainda existe vida nessa terra
Lutando por direitos inalienáveis
farrapos, balaiada, sabinada e cabanagem
Quem não tiver pecados 
que não atire pedras
e vá descansar no regaço
da sua própria indolência.
A manada pasta em seu cercado
e aguarda silenciosa na fila do matadouro
e acha ruim quando um touro jovem
rompe impetuoso a cerca...


quinta-feira, 28 de março de 2013

Os Vendilhões do Templo de Salomão



Cretinização,
idolatria de ventre nu
levando de barriga
tela colorida de plasma
alta definição que escorre 
defeca sobre a mesa do jantar
produtos GMO
Cair no lugar comum
é tombo sem volta
marca registrada 
trade mark made in USA
Idiotia
fé cega, faca amolada
na garganta do Cristo
sangra a lamina do pastor meliante
e Jesus oferece a outra face
uma face desconhecida
pobre, carente, indefesa
de menina adolescente
e rapaz sem escola
coisa fechada, sem gosto
batendo no peito
mea culpa, mea maxima culpa



terça-feira, 5 de março de 2013

Paulo Leminsky





Alguns anos atrás
Conheci Paulo Leminsky 
como nome de praça em Curitiba
Já tinha o poeta nessa época partido para o Céu da poesia
Li sua sucinta tradução de Hai Cais
Algumas resenhas perdidas
Até cair na minha mão toda a sua poesia
Então estupefato e maravilhado
percebi como seus lindos versos
que  antes nunca tinha lido 
tinham influenciado até então 
minha pobre escrita

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

PADMA



Já teci mil palavras sobre o Padma Sagrado
Mistério que desabrocha da água inculta/poluída
Dizem os sábios mestres 
que nem todos crescem tão longe da luz
outros mal rompem o limite da linha d'agua
outros ainda mais se aproximam da morada do sol.

Gautama, o Tataghata
em sua célebre palestra sob a frondosa árvore
sem palavra alguma
exibiu simples flor para os discípulos
e naquele momento imediatamente
muitos alcançaram o samadhi
inclusive um pobre pastor 
que de longe avistava o Iluminado



Na superfície desse lago congelado segue o mestre 
mal tocando a fina camada de água pura
em cada leve pisada
evita romper o gelo novo da última geada 
do inverno que finda.

Nova primavera
Cada novo brôto verde de vida
é sorvido pelos viajantes
Sofrega vida que brilha e grita
na terra viva

Onde se esconde o Lótus Sagrado ?

Na trilha sinuosa observo ao longe
as costas do mestre que se distancia
Com seu cajado, passos trôpegos

Abro a porta da mente e retorno à rua
cheia dos gases de veículos apressados
insuspeitas cobaias da cidadela labirinto 
caminhos que não chegam a lugar algum 



domingo, 17 de fevereiro de 2013

SAMSARA





I

Arjuna e Krishna observam do alto da colina
Do carro de guerra o rei Pandava inquieto
avista a terrível cena que abaixo descortina
No amplo vale os dois exércitos se enfrentam
Dois blocos de nobres infantes manobram
elefantes de guerra, carros e cavalaria ligeira
cintilam as couraças dos guerreiros na aurora, 
ouvem-se os gritos de ordens da batalha 
Boca seca, mãos tremulas, frouxas pernas
o soberano guerreiro já pensa desistir e vacila 
antevendo o nefasto fim, a final carnificina
Nas falanges opostas habita sangue da mesma cepa
muitas viúvas prantearão a morte de tantos heróis
recolherão seus familiares corpos nos campos sem vida
resultado horrendo e certo da batalha fratricida.
Nota o  deus auriga a hesitação do chefe das hostes luminosas
sentimento que põe a perder  a guerra
o fim da vitória dos justos sobre os poderosos
mudar para sempre a face do destino dos futuros faustos dias
quando os deuses já não estiverem mais entre os homens
e a vida do planeta por um fio exista.
Sua verdadeira imago o pastor dos deuses por fim revela:
- Percebe Arjuna como tudo é ilusório !
Das hostes a finitude prospera e já faz sua amarga colheita 
Olha para mim soberano dos Pandavas
Eu sou Kala a morte que tudo transforma
Sou eu que levo as almas como seiva bruta
para as fornalhas dos infernos, eterna forja
Sou eu que transmigro as almas no seu Karma eterno
ao Destino somente subalterno  
que cinge o sinal  na fronte do destemido guerreiro  
e determina se sobrevirá ao valente ou não um novo dia 
ou será aniquilado nessa terra, para viver em outra futura harmonia
Hare Samsara que do Universo tudo condena
e até Vishnu comanda
Lei eterna do dia de Brahman
Sou foice sagrada que sega a colheita.



II

Grandiosa imagem de Vishnu se expande
tridente, báculo e coroa iridescente
mostra sua verdadeira aparência Krishna
para o pobre soberano temeroso e vacilante 
o pastor da cor do céu de sua boca exala 
os astros luminosos da infinita Criação
o Espaço sem fim que incha suas formas 
De sua voz que trona como magnifico trovão
Nesse redemoinho formidável espectros são sorvidos 
exércitos dos homens são destruídos
como formigas são esmagadas em um formigueiro
Hoje, agora e para todo o sempre 
numa interminável curva de sangue e morte
que se escoa eternamente pelo fulcro interminável 
da Roda Chamejante do Destino
Ilumina então o semblante do rei guerreiro
da aparição tenebrosa que testemunha
a compreensão vem como uma centelha
o esclarecimento como chave eterna
abre a porta do shatria soberano



III

Cada um cumpre seu papel nessa vida
Jogo de dados que só Brahman conhece as regras
eterna luta que do espaço avista
do coração o homem deve ser escravo 
da mente a ilusão de maya esconde
uma falsa eternidade ao homem
que pretende o corpo proteger 
e torna a existência como verme que se enrosca
em galho de velha árvore apodrecida 
derrubada em tênue ventania
ou levado por correnteza sobre fina folha
que se afoga logo ao fim da vida
Assim na Terra tudo nada muda 
e fenece o que mais importa
a eterna alma, falso Karma 
minúsculo fogo que se extingue
na imensa forja de Brahman.