segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Calle



Calada a prosa
Sem tanto tempo
segue imperturbável seu canto
Calle ancha
passeio bruto, sem rumo
Toca Atualpa Yupanqui
guitarra rouca, elétrica
voz sumida da América
tinge de sangue as mãos do menestrel
poucas moedas caem em seu pano

Calada a prosa
passa imperturbável o tempo
entre pedras e portas 
de artificio pleno
entre multidões perseguidas
soam acordes
cordas nuas dedilhadas com esmero
notas rubras são atiradas ao céu
ou nem tanto
são poucos os ouvidos prontos/
atentos
como aviso e chama
incendeia o corpo
da nave infecunda
segue a tarde sem rumo 
a verdade agora já não transluz









quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Desapego (Sísifo)





Imensa rocha 
empurra o servo do purgatório
aclive acima
Quando no seu ápice 
cumpre a pena de tão íngreme subida
retorna o petardo
morro abaixo

Tenta novamente o escravo do destino
retomar com a carga
o caminho da subida
empurrando o fardo de pedra

Libera seu peso ! Libera !
limpa a tez úmida 
e olha para trás o cruel abismo
onde mais cedo ou mais tarde 
toda a soberba se encontra
de onde as vozes das almas ecoam
clamam o socorro
ao perceber que nada perceberam
enquanto viviam suas vidas impolutas...

terça-feira, 25 de junho de 2013

Sujos Degredados




Desterrado marujo
mira a linha do horizonte
deplorando a própria sorte
de criminoso naufrago
abandonado pela Nau Capitania

Recorda com triste nostalgia
as cidadelas infectas,
sarjetas à céu aberto,
a peste negra
e as tabernas sujas
onde indolente o rum sorvia

Olha com desprezo de Gargantua
os nus selvagens da terra ao seu redor
onde prisioneiro habita
Bestas indecentes 
que adoram banhar-se em águas puras
Não percebem que enfraquecem
no corpo os humores da vida?

Não é por nada que desde sua vinda
morre um todo o dia.

Saudade que não passa
doença que se arrasta
e contamina futuras gerações
que permanecem na praia
como marujo condenado
olhando o horizonte
a espera da nau que nunca regressa...

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Abatis Fortunattis






Para cada árvore existe uma ninfa protetora
Dizem os alfarrábios da magia
Na essencia da seiva que flui
brota mágica energia 
O deslumbre da aurora
todo o dia tinha da minha janela 
 frondosa companheira
onde lindos pássaros habitavam
e alegravam com seus cantos as redondezas
Insensível humano certa feita 
por estranha estética e idiotia
resolveu abater o pobre ser 
que de sua sombra a vida abrigava
e a ninfa chorosa viu cair
suas ramas em triste madrugada
A obra de doentia  estética 
revestia de cimento a calçada
Da janela olhei para o mal feito
e clamei da ninfa a certa vingança 
e o chão abriu-se aos poucos todos os dias
formando imensa vossoroca
Imaginem o que espera o sujo porco
que destruiu centenas de árvores em um só dia
burgomestre de malfadada cena
Terá terrível morte em agonia
Assim comanda o dito sortilégio
conjurada praga
das ninfas que do luto de seu pranto
passada a tristeza vem a ira 
abrirão as entranhas do mal feitor
com machadas
de onde jorrará sua humana seiva
em dantesca tortura
assim foi dito pela fada

sábado, 13 de abril de 2013

Amor em tempos de Fúria








Meninos mascarados 
lembram aos adultos domesticados
que ainda existe vida nessa terra
Lutando por direitos inalienáveis
farrapos, balaiada, sabinada e cabanagem
Quem não tiver pecados 
que não atire pedras
e vá descansar no regaço
da sua própria indolência.
A manada pasta em seu cercado
e aguarda silenciosa na fila do matadouro
e acha ruim quando um touro jovem
rompe impetuoso a cerca...


quinta-feira, 28 de março de 2013

Os Vendilhões do Templo de Salomão



Cretinização,
idolatria de ventre nu
levando de barriga
tela colorida de plasma
alta definição que escorre 
defeca sobre a mesa do jantar
produtos GMO
Cair no lugar comum
é tombo sem volta
marca registrada 
trade mark made in USA
Idiotia
fé cega, faca amolada
na garganta do Cristo
sangra a lamina do pastor meliante
e Jesus oferece a outra face
uma face desconhecida
pobre, carente, indefesa
de menina adolescente
e rapaz sem escola
coisa fechada, sem gosto
batendo no peito
mea culpa, mea maxima culpa



terça-feira, 5 de março de 2013

Paulo Leminsky





Alguns anos atrás
Conheci Paulo Leminsky 
como nome de praça em Curitiba
Já tinha o poeta nessa época partido para o Céu da poesia
Li sua sucinta tradução de Hai Cais
Algumas resenhas perdidas
Até cair na minha mão toda a sua poesia
Então estupefato e maravilhado
percebi como seus lindos versos
que  antes nunca tinha lido 
tinham influenciado até então 
minha pobre escrita