sexta-feira, 27 de julho de 2012

Campo de Batalha







Corvos disputam as carniças
Onde antes heróis disputavam flâmulas
para as Valquírias
Silencio dos corpos insepultos
Grasnar das negras aves de luto




CLASSIFICADOS

Vende-se Casa de Sobrado
que necessita pequenas reformas
com amplos quartos vazios
dos filhos que já se foram
Depósito de ilusões perdidas
Cozinha de afazeres sórdidos
Sala de gritos suspensos no ar
Porta da rua aberta para nunca mais voltar



terça-feira, 26 de junho de 2012

Terra Cansada

Campo desnudo
a lavra se perde até o horizonte
o lavrador caminha 
ceifas e enxadas ao ombro
esconde o sol
o rosto tardio
o cansaço amargo
do homem
da lavra
da terra arada


segunda-feira, 5 de março de 2012

O Dragão Fêmea e a Lua Negra



Não fosse da noite testemunha
a Lua Negra 
Selene pálida quase sumida 
Artemísia mirava sua imagem de narciso
no lago da intensa paixão reflexa
Não fosse agora, como seria ontem
um sonido, uma buzina insuspeita
 ténue raio trespassava o lucivelo
que iluminava a mundana rua
Rosa Branca teria sido despercebida
de Artemísia ébria de espíritos



Nesse mesmo instante
do centro inefável da galáxia,
de onde habita Panku
raios cósmicos peraltas
vieram aqui tecer suas brincadeiras
de partículas infantes
sem formas, nem vícios
varando a tela sutil da noite
atravessando mentes e corpos
ligando, separando, recriando, desunindo
harmônicas e constantes
incendiando paixões e líbidos
colocando em movimento
imensas energias celestes
sem culpa



Rosa Branca e Artemísia voluntariosa
trocam olhares, tramam artimanhas
jogos de cena, palavras roucas
confissões que só os espíritos do vinho concedem
palavras que só a madrugada consente
No banho nu da Lua Negra
inflama tórrida união
se entregam como podem
enroscadas no troca, troca
sem dó ou pudor
sem nada que não seja o tocar
gozo, prazer e delicia



Flor se despetala
caçadora que espreita
fisga a presa e flui
liquido susurro de prazer
inesgotável ardente lascívia


Folia de partículas peraltas 
do centro inefável da galaxia
  levianas andarilhas de estrelas
êxtase e paixão 
de Rosa Branca e Artemísia...





quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Guerras e Notícias de Guerras


O Fantasma da Pulga - Willian Blake


O Mal entre nós já habita
Nos Dízimos e nos Dizimistas
Que pagam a fé como se fosse um fast food
Enquanto engorda o demônio de toga
Que prega o ódio na porta do templo
Vocifera ensandecido
Sobre as chamas do inferno
Faz do Demo sua escola
E profana o nome do Cristo
Jesus implora ao Pai
A misericórdia Divina
Que se exaure a cada dia
Como areia que escorre na Clepsidra
Satã é o olho de Deus que vagueia sobre a Terra



Satan Atormenta Jó - Willian Blake

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Autopoiesis





Sol pulsa no vácuo
um pulsar sonoro candente
incendeia a coroa solar
emana luz e calor
Hare Brama
Hare Krishna
harmonia Celestial
incendeia a coroa 
da mente do pensador


Segue teu incrível destino
de pedra curta, ou pedra lascada
de planta unicelular
DNA, célula
de ameba pobre surda
salto de velocidade 
absurda / instantânea
para o portento
da matinal divindade
que produz o dia Cósmico...



sexta-feira, 11 de novembro de 2011

AK 47




I

Acarreta a folha caída
o Livro canto
Preenche com minúcias
as brancas folhas
Como prenhe
líquido amniótico
que escorre sangrento
enquanto nasce o rebento
Mamífera figura
pasta junto ao rebanho
Rumina idéias
como o vento 
brandindo a gramínea
Neocórtex Central 
avantajado
procura deuses 
sobre a relva
enquanto o pasto seca
resoluto
Multitude de seres
roubam almas
e destroem campos.

II

Logo as almas fartas
escasseiam
nos Céus de nuvens
do paraíso
Após, do Abismo, a Queda
na Terra encarnam 
demônios sedentos
que em rebanhos
nuvens densas como pragas
devoram / liquidam
as flores da Primavera

III

Meu Daímon
espelho reflexo
sorri com desdém
e sussurra empedernido
Até agora o que fizeste?
Mourejaste com os ímpios
Negaste aos companheiros 
teu ombro em meio a batalha
Teus filhos imolaste
aos deuses que pairam nesse mundo
sedentos de sangue e gentes
Como fera camuflada
predador que segue o rebanho
e devora os mais doentes
de todos és o pior pecador
pois tens o conhecimento
e negas a tua sabedoria.

IV

Incontinenti contesto a imagem
o Daímon reflexo:
Não seria esmagado
como foram tantos 
pelo leviatã a cargo dos poderosos?
Não choram ainda as carpideiras 
tantos corpos insepultos na Terra?
Os vencedores não dançam ainda 
seus festins 
sobre os cadáveres?
Minha covardia tem sido
até agora a melhor arma
chave de minha sobrevivência
Mas paga a pena o covarde vivo
ao observar o lindo mundo
virado inferno
pelo desacerto dos homens
Ato contínuo: o rebanho pasta
Como fera camuflada
permaneço ruminando
a espera da Aurora...